segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

The Future

The Future
Direção: Miranda July
Roteirista: Miranda July
Elenco: Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky

Do que se trata?
Se trata de um casal, Sophie e Jason, que estão juntos a quatro anos e decidiram adotar um gato para se unir a eles, contudo a chegada do mascote felino demorará ainda trinta dias. E, pensando sobre isto, eles percebem que esses trinta dias podem ser os últimos da vida como eles conhecem, e que está na hora de começar a reavaliar prioridades e dar um sentido a existência. Entretanto, os dois parecem rumar para caminhos diferentes, e o que poderia uní-los ou salvá-los começa a devastá-los.






Como realmente é?
Absurdamente diferente de tudo que eu já vi. O filme começa como se fosse algo simples: dois jovens que percebem que não são mais tão jovens assim, que o futuro está ali próximo deles e eles não estáo preparados o suficiente. E que decidem dar uma reviravolta na vida para driblar o Tempo. Porém, o que podia ser simples e sem graça, acaba ganhando uma aura fantasiosa de quase ficção científica, com o Tempo perdendo sua essência linear. Enquanto isto, os protagonistas se vêem de frente não apenas com o efeito de um futuro que teima em abordá-los, mas também com a capacidade de esquecer e superar.


O que eu achei?
Brilhantemente louco. A história tinha tudo para cair na banalidade de ser mais um filme sobre crises existências à cerca de futuro, expectativas, sonhos e tempo, mas ele foge de qualquer tipo de crise declarada e trabalha num belo subjetivismo. Acho que as personagens contribuem muito para isso: elas são de poucas palavras, dois jovens na era do mundo virtual, que se sentam no mesmo sofá trancafiados em seus respectivos computadores, desperdiçando a juventude que lhes foi dada e deixando a paixão se apagar, enquanto seus sonhos e expectativas se perdem. Com eles dois, o roteiro utiliza poucas palavras, sem diálogos arrastados, mas nem por isso simples a nível filosófico; tem momentos em que não há nada de direto nas palavras, e sim idéias abstratas. E volta e meia ele assume um caráter lírico e poético na voz quase narradora do gato ao esperar seus futuros donos. Enquanto isso, para não enfraquecer a beleza criada pelo roteiro simples, há as duas atuações fantásticas dos protagonistas, que passam, no gaguejar das vozes, no jogo de olhares silenciosos, no abanar de cabeças que não compreendem, todo o sentimento de perdição que acompanha suas personagens. Há nos olhares agonia, dor, felicidade, arrependimento, tudo aquilo que o roteiro abre mão de explicar em palavras.
A fotografia passa a maior parte do tempo como um grande auxílio para reforçar as atuações grandiosas, ora se mantendo distante da cena, ora tão perto dos atores que os olhares parecem nos encarar. Contudo, em especial para o final, ela assume tons majestosos e artísticos, se mantendo estática e impessoal. Porém, o que devia nos afastar, acaba que, estranhamente, nos ajuda a criar uma intimidade com a cena. E, se o roteiro a partir de um certo momento começa a assumir características de ficção científica e praticamente descontruindo toda a linha temporal do filme, a fotografia dá um excelente apoio para essas cenas, em perfeito sincronismo com o ritmo, que é sempre calmo e um tanto lento, mas não melancólico.
Muito mais do que talvez um filme sobre simplesmente o Tempo como ele devora a existência de uma maneira única, é uma obra sobre, como o nome diz, o futuro. E sobre o que estamos dispostos a fazer com ele, e sobre até onde estamos dispostos a ter esperança nele. Se a adoção do mascote é o grande pivô para todos os questionamentos, é na resolução da adoção que mora uma das grande mensagens do filme: nem sempre a vida espera. E nem sempre esperar é o suficiente para expulsar as mágoas.

Em uma nota?
9.5

Uma notícia chata junto com uma boa:
O filme nunca foi realmente lançado no Brasil, apesar de ser fantástico. Ficou retiro a pequenas aparições em mostras e festivais de cinema, mas nunca chegou aos circuitos nacionais. Uma pena. Porém, ainda é possível encontrá-lo, e legendado, pelos sites de download internet a fora.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Rosa Púrpura do Cairo

A Rosa Púrpura do Cairo
Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello

Do que se trata?
O filme fala sobre a história de como a vida de uma jovem garçonete chamada Cecília mudou completamente em dois dias. Dona de uma vida infeliz, com um marido grosseirão, constantemente bêbado e desempregado, ela tem como única válvula de escape para toda a infelicidade a sua paixão: o cinema. Entretanto, após ver tantas vezes no cinema o filme "A Rosa Púrpura do Cairo", algo inusitado acontece: o herói salta da tela e do mundo fictício para o real, e lhe propõem que o ensine como é o mundo real e que fuja com ele. Porém, devidos aos efeitos da fuga, o ator que deu vida ao herói vê sua carreira ameaçada, e parte em busca de sua criação para evitar uma catástrofe no mundo do cinema e se apaixona também por Cecília.


Como realmente é?
Uma viagem total do Woody Allen. Todo ambientado no cenário dramático e caótico da Grande Depressão norte-americana, o filme se constrói em cima da desesperança da vida real, tomada por insegurança, desemprego e miséria. Atormentada pela necessidade de sustentar sua casa, Cecília tenta sobreviver no trabalho de garçonete, porém seus pensamentos parecem sempre estar em outro lugar, no mundo da ficção bela e estável dos filmes que assiste no cinema, sendo até já conhecida no mesmo. Contudo, após sua demissão, ela se entrega a uma sala de cinema com o mesmo filme sendo exibido sem parar, até que o herói e galã se apaixona por ela e sua admiração pela obra e foge da tela.

O que eu achei?
Fabuloso. Fabuloso e encantador. Está na disputa com o "Manhattan" para ser o melhor filme do Woody Allen que eu já vi, mesmo sendo um estilo bem diferente. A história é uma loucura que eu nunca tinha visto antes: uma pergonagem de um filme ser capaz de sair da tela e criar existência no mundo real, mas mantendo suas características fictícias. Porém, é uma loucura extremamente bem feita e elaborada, que mantém um elo muito forte com a realidade. O elenco todo está muito bem, e a Mia Farrow melhor do que nunca, mas quem já viu muitos filmes do Woody Allen com ele atuando sempre vai sentir falta dele.
Enquanto isso, cômico, sutil, mirabolante, perfeito, o roteiro se constrói na dualidade ficção-realidade, mostrando como a vida de Cecília ora é estupenda, ora é sem graça, tudo dependendo da presença do herói fugido. Parece que para se ir do céu dos sonhos cinematográficos ao inferno da tristeza norte-americana basta apenas a presença ou ausência do herói. Entretanto, mais do que apenas mostrar essa dualidade, o roteiro materializa o efeito da arte como uma rota de fuga do mundo real. Dá para perceber nitidamente que existem duas Cecilias na obra: a espectadora do cinema e a garçonete trabalhora. É uma perfeita fábula de como a arte, e em especial o cinema, que se firma como uma quase personificação da vida humana, são capazes de alterar os rumos das pessoas, a partir do momento em que são mais do que escapatórias: são uma fonte, talvez inesgotável, de esperança para a própria vida.
Os filmes são muito mais que diversão para a Cecília; são, inconscientemente, uma maneira de valorizar o viver. São os sonhos que muitas vezes morrem dentro de nós, levados pela frieza de um mundo indiferente à dor. São as vidas que gostaríamos de viver, e nunca vivemos.

Em uma nota?
10.0