sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
A Partida
A Partida
Direção: Yojiro Takita
Roteirista: Kundo Koyama
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki
Do que se trata?
O filme conta a história de um jovem chamado Daigo, violoncelista de uma orquestra em Tóquio, que mora com a esposa em uma vida simples e tranquila. Contudo, sem aviso prévio ou espera, a orquestra é desfeita, e a única opção que lhe resta é voltar para a sua cidade natal no interior do Japão e morar na casa deixada por sua mãe como herança, e rumar em busca de emprego na nova moradia. Seguindo um anúncio de jornal para uma vaga bem remunerada e sem necessidade de conhecimentos específicos, Daigo arruma um emprego atípico: preparador de corpos para enterros.
Como realmente é?
Absurdamente difícil de falar. Mas talvez seja o filme mais tocante que eu já vi, do tipo que nenhuma sinopse ou crítica vai conseguir transmitir todas as emoções que ele provoca. Tendo como protagonista um jovem japonês desempregado e desiludido com a arte que praticava, uma personagem um tanto cômica, atrapalhada e simpática, o filme fala de uma maneira maestralmente leve de um dos grandes medos da humanidade em geral: a morte. E, mais do que a morte simplesmente, a passagem que ela cria, tanto para os vivos como para os mortos.
O que eu achei?
Que não importa o meu esforço nessa crítica e as horas gastas, eu nunca vou conseguir chegar perto da beleza dele. Tendo uma história bastante simples e normal, ele se constrói num conjunto de obra que seria necessário criar uma nova palavra para tentar caracterizar, tamanha é a perfeição. Tudo fruto de uma fotografia muito bem feita, com closes nas horas certas e um afastamento artístico impecável, em comunhão com uma trilha sonora instrumental belíssima e um roteiro humano de falas simples, mas história complexa, que estabelece poucas falas entre as personagens. E, para completar tudo, atuações impecáveis; talvez o roteiro em si seja simples porque somente pelos olhares das personagens voam emoções que as palavras dificilmente encontrariam espaço para explicar, dor, sofrimento, alegria, desespero, perdição, tudo é passado a quem vê somente pelos olhares e pelos closes certeiros.
Falando sobre a morte, é de se esperar que o filme caia na armadilha de virar uma obra depressiva e triste, densa e pesada, que suga do seu espectador toda a sua vontade de viver. Entretanto, o filme usa de um excelente bom humor, além da sua abundante sensibilidade humana, para criar uma aura extremamente leve e quase alegre para abordar um tema tão pesado. Nunca se utiliza de atenuar a dor das personagens para nos provocar igual dor, contudo se cria lenta e serenamente um sentimento de reflexão e tristeza no espectador, que vê na obra uma maneira sadia e bela de se tratar o morrer: é tudo uma passagem.
Evitando pensar sobre o pós-morte, o objetivo é falar sobre aqueles que ficaram. Porque pouco importa se há além ou não, se há espírito ou não, tudo isso depende de crenças individuais, contudo o inegável é que os vivos continuam vivos, e a eles pertence a verdadeira dor da morte. A eles pertence a verdadeira dor de enterrar aqueles que amam, a eles pertence o sofrimento dos arrependimentos, a eles pertencem as lágrimas de tristeza que serão derramadas, por dentro ou por fora. E se a morte é algo fatídico e inadiável, se a passagem é a constante realidade da vida, que ao menos ela seja feita de uma maneira natural, pois isto que a Morte é: natural.
Ao invés de qualquer expectativa, o filme não nos dá vontade de morrer. Mas pelo contrário; ele nos enche de vontade de viver. Viver, viver e viver, pois a natureza e fim da vida está na Morte, e a passagem não é feita depois dela, mas sim durante o singelo intervalo entre nascer e morrer, também chamado de vida.
Em uma nota?
10.0
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Manhattan
Manhattan
Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne, Karen Ludwig, Michael O'Donoghue, Damion Sheller
Do que se trata?
O filme conta a história de Isaac, um escritor nova-iorquino apaixonado pela sua cidade moradia e que escreve para um programa de comédia da televisão. Já um quarentão e com dois divórcios no passado, um deles sendo desmembrado publicamente pela ex-esposa num livro, ele mantém uma quase-relação com uma jovem de dezessete anos, a qual ele mesmo repudia a todo momento pela enorme diferença de idades. Enquanto isso, seu amigo Yale, casado, tem um caso com uma mais velha e interessante jornalista, aparentemente o oposto do Isaac, mas que acaba por despertar algo nele.
Como realmente é?
Um dos primeitos filmes do Woody Allen, filmado em preto-e-branco, que mostra muito bem o universo criativo do Woody, sempre habitado por filósofos, escritores, roteiristas, jornalistas, artistas, figuras do meio "cult" nova-iorquino. Habitado sempre por diferentes frações do próprio diretor, provavelmente. E dessa vez o protagonista é um escritor meio perdido entre abandonar tudo e se dedicar a fazer arte ou continuar escrevendo roteiros medíocres para um programa de grande massa, que se sente culpado por namorar uma colegial ao mesmo tempo que se deixa apaixonar por ela e sua aura leve e pura de amor benévolo. Porém que se apaixona pela amante de seu melhor amigo, uma mulher na sua faixa etária, com desestabilidade emocional, tendência a carência e depressão, e profundamente interessante.
O que eu achei?
Um filme leve e divertido. Um dos melhores filmes que eu ja ví do Woody Allen, com a mesma fórmula de roteiro típica do Woody Allen: falas rápidas, um protagonista meio neurótico e artista, humor seco, sexualidade em alta, dilemas morais. Se no "Tudo Pode Dar Certo" ele pensa sobre a moralidade da vida e a existência da felicidade, aqui ele pensa, e repensa, sobre os valores que cercam as relações amorosas. Mesmo com um casamento feliz e pleno, como alguém pode ir se aventurar em outras águas? Um casamento feliz é sinônimo de acomodação total?
A estética geral talvez não seja muito fácil: todo filmado em preto-e-branco. Além do mais, o filme data de 1979, então a própria qualidade da imagem em geral fica mais precarizada, contudo nada que realmente interfira nas sensações. Talvez só te aproxime de uma Manhattan mais charmosa e mais antiga. Enquanto isso, as atuações são muito boas, em especial a do Woody Allen, como quase sempre em seus filmes, e da jovem moça que interpreta sua namorada colegial.
E se o grande trunfo do filme jaz no roteiro, este é impecável em todos os sentidos, desde as personagens bem construídas até o ritmo certeiro e as falas bem colocadas, mas parece mesmo sendo impecável, o filme ainda nos passa a sensação de faltar algo, da inexistência de uma proximidade entre nós e as personagens. Entretanto, a todo momento ele nos faz pensar sobre aonde realmente mora a felicidade, sobre como os relacionamentos passados nos afetam, sobre como o ser humano se corrompe ao longo da vida. E o filme fecha com a fala que representa, no fundo, o verdadeiro espírito do filme: "Nem todo mundo está corrompido. Tem de ter um pouco de fé nas pessoas". E talvez seja verdade que precisamos ter mais fé nelas.
Em uma nota?
9.5
Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne, Karen Ludwig, Michael O'Donoghue, Damion Sheller
Do que se trata?
O filme conta a história de Isaac, um escritor nova-iorquino apaixonado pela sua cidade moradia e que escreve para um programa de comédia da televisão. Já um quarentão e com dois divórcios no passado, um deles sendo desmembrado publicamente pela ex-esposa num livro, ele mantém uma quase-relação com uma jovem de dezessete anos, a qual ele mesmo repudia a todo momento pela enorme diferença de idades. Enquanto isso, seu amigo Yale, casado, tem um caso com uma mais velha e interessante jornalista, aparentemente o oposto do Isaac, mas que acaba por despertar algo nele.
Como realmente é?
Um dos primeitos filmes do Woody Allen, filmado em preto-e-branco, que mostra muito bem o universo criativo do Woody, sempre habitado por filósofos, escritores, roteiristas, jornalistas, artistas, figuras do meio "cult" nova-iorquino. Habitado sempre por diferentes frações do próprio diretor, provavelmente. E dessa vez o protagonista é um escritor meio perdido entre abandonar tudo e se dedicar a fazer arte ou continuar escrevendo roteiros medíocres para um programa de grande massa, que se sente culpado por namorar uma colegial ao mesmo tempo que se deixa apaixonar por ela e sua aura leve e pura de amor benévolo. Porém que se apaixona pela amante de seu melhor amigo, uma mulher na sua faixa etária, com desestabilidade emocional, tendência a carência e depressão, e profundamente interessante.
O que eu achei?
Um filme leve e divertido. Um dos melhores filmes que eu ja ví do Woody Allen, com a mesma fórmula de roteiro típica do Woody Allen: falas rápidas, um protagonista meio neurótico e artista, humor seco, sexualidade em alta, dilemas morais. Se no "Tudo Pode Dar Certo" ele pensa sobre a moralidade da vida e a existência da felicidade, aqui ele pensa, e repensa, sobre os valores que cercam as relações amorosas. Mesmo com um casamento feliz e pleno, como alguém pode ir se aventurar em outras águas? Um casamento feliz é sinônimo de acomodação total?
A estética geral talvez não seja muito fácil: todo filmado em preto-e-branco. Além do mais, o filme data de 1979, então a própria qualidade da imagem em geral fica mais precarizada, contudo nada que realmente interfira nas sensações. Talvez só te aproxime de uma Manhattan mais charmosa e mais antiga. Enquanto isso, as atuações são muito boas, em especial a do Woody Allen, como quase sempre em seus filmes, e da jovem moça que interpreta sua namorada colegial.
E se o grande trunfo do filme jaz no roteiro, este é impecável em todos os sentidos, desde as personagens bem construídas até o ritmo certeiro e as falas bem colocadas, mas parece mesmo sendo impecável, o filme ainda nos passa a sensação de faltar algo, da inexistência de uma proximidade entre nós e as personagens. Entretanto, a todo momento ele nos faz pensar sobre aonde realmente mora a felicidade, sobre como os relacionamentos passados nos afetam, sobre como o ser humano se corrompe ao longo da vida. E o filme fecha com a fala que representa, no fundo, o verdadeiro espírito do filme: "Nem todo mundo está corrompido. Tem de ter um pouco de fé nas pessoas". E talvez seja verdade que precisamos ter mais fé nelas.
Em uma nota?
9.5
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A Estrada
A Estrada
Direção: John Hillcoat
Roteirista: Joe Penhall, Cormac McCarthy (livro)
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Robert Duvall, Guy Pearce.
Do que se trata?
Se trata de um pai tentando manter seu filho a salvo em mundo sem civilização. Depois de um trágico e inexplicável colapso da natureza, a civilização como nos é conhecida, e toda a sociedade, entrou em colapso. Em meio a isso, um pai luta contra todos os obstáculos, desde frio e fome até o próprio homem, para garantir a sua sobrevivência e a do filho, enquanto eles tentam ir para o Sul, a única esperança que lhes resta.
Como realmente é?
Bem mais que uma história de um pai lutando para salvar seu filho do perigo; é, sim, uma fábula sobre como poderia ser, em uma visão bem pessimista, o mundo se a civilização fosse rompida. Ambientado num mundo devastado por uma gravíssima crise ambiental que matou a maioria dos animais e plantas, a história trabalha entre as lembranças criadas pelo pai sobre a esposa dele, em paralelo com o presente que ele vive, ou sobrevive, com o filho. A luta por comida se tornou desumana e o próprio ser humano parece se esquecer o que ele mesmo é; a civilização deixou de existir, a sociedade foi destruida, os contratos sociais foram quebrados. E nesse mundo apocalíptico, tendo como lei a sobrevivência e a insanidade, o maior medo não é morrer, mas sim ser comido antes de morrer.
O que eu achei?
Incrível, apesar de bem pesado e depressivo. Seguindo a mesma tendência de desbravar o ser humano vista no "O Nevoeiro", o "A Estrada" consegue ir ainda mais fundo: se num o ser humano perdia o senso racional pelo medo, mas ainda vivia em uma sociedade, neste a própria sociedade deixou de existir, e o conceito de humano parece ter morrido com ela. Todo ambientado em cenários destruídos, a fotografia do filme se mantém perfeita sempre baseada em tons de cinzas e cores mortas, que só ganham vida quando o roteiro retoma ao passado dos protagonistas, nos remetendo ao mundo pré-devastação, à felicidade e à vida de verdade. Porém, conforme as lembranças vão caminhando para o presente, sentimos a degradação temporal da esperança, e se tanto o pai quanto o filho lutam tanto pela sobrevivência, parece que esta luta é mais uma teimosia de tentar até o final do que verdadeiramente fé de um bom final.
Ficando, volta e meia, nessa dualidade presente-passado, o roteiro se constrói de maneira perfeita. Frio, porém sensível, realista, porém esperançoso, direto, porém sutil. Assim, ele se mantém em sutilezas muito bem colocadas, numa linguagem hora poética e hora dura, que se apoia bastante em expressões faciais e na fotografia maravilhosa, construindo um ritmo muito bom que não nos deixar cair em demasiada depressão e sempre nos faz querer saber o que acontecerá em seguida. Enquanto isso, nos barbarizamos nas figuras humanas-animais que vemos nesse mundo sem civilização, sem sociedade, sem lei e sem contratos sociais.
Se um dia já nos perguntamos como seria o mundo sem quaisquer uma dessas coisas, a obra nos dá uma resposta pessimista sobre tudo. E se um dia já fomos capazes de nos perguntar até que ponto um homem seria capaz de ir pela sobrevivência, o filme nos responde em uma frase de Hobbes: o homem é o lobo do próprio homem. Contudo, nem Hobbes contava com um sentido tão literal, creio eu.
Em uma nota?
8.5
Direção: John Hillcoat
Roteirista: Joe Penhall, Cormac McCarthy (livro)
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Robert Duvall, Guy Pearce.
Do que se trata?
Se trata de um pai tentando manter seu filho a salvo em mundo sem civilização. Depois de um trágico e inexplicável colapso da natureza, a civilização como nos é conhecida, e toda a sociedade, entrou em colapso. Em meio a isso, um pai luta contra todos os obstáculos, desde frio e fome até o próprio homem, para garantir a sua sobrevivência e a do filho, enquanto eles tentam ir para o Sul, a única esperança que lhes resta.
Como realmente é?
Bem mais que uma história de um pai lutando para salvar seu filho do perigo; é, sim, uma fábula sobre como poderia ser, em uma visão bem pessimista, o mundo se a civilização fosse rompida. Ambientado num mundo devastado por uma gravíssima crise ambiental que matou a maioria dos animais e plantas, a história trabalha entre as lembranças criadas pelo pai sobre a esposa dele, em paralelo com o presente que ele vive, ou sobrevive, com o filho. A luta por comida se tornou desumana e o próprio ser humano parece se esquecer o que ele mesmo é; a civilização deixou de existir, a sociedade foi destruida, os contratos sociais foram quebrados. E nesse mundo apocalíptico, tendo como lei a sobrevivência e a insanidade, o maior medo não é morrer, mas sim ser comido antes de morrer.
O que eu achei?
Incrível, apesar de bem pesado e depressivo. Seguindo a mesma tendência de desbravar o ser humano vista no "O Nevoeiro", o "A Estrada" consegue ir ainda mais fundo: se num o ser humano perdia o senso racional pelo medo, mas ainda vivia em uma sociedade, neste a própria sociedade deixou de existir, e o conceito de humano parece ter morrido com ela. Todo ambientado em cenários destruídos, a fotografia do filme se mantém perfeita sempre baseada em tons de cinzas e cores mortas, que só ganham vida quando o roteiro retoma ao passado dos protagonistas, nos remetendo ao mundo pré-devastação, à felicidade e à vida de verdade. Porém, conforme as lembranças vão caminhando para o presente, sentimos a degradação temporal da esperança, e se tanto o pai quanto o filho lutam tanto pela sobrevivência, parece que esta luta é mais uma teimosia de tentar até o final do que verdadeiramente fé de um bom final.
Ficando, volta e meia, nessa dualidade presente-passado, o roteiro se constrói de maneira perfeita. Frio, porém sensível, realista, porém esperançoso, direto, porém sutil. Assim, ele se mantém em sutilezas muito bem colocadas, numa linguagem hora poética e hora dura, que se apoia bastante em expressões faciais e na fotografia maravilhosa, construindo um ritmo muito bom que não nos deixar cair em demasiada depressão e sempre nos faz querer saber o que acontecerá em seguida. Enquanto isso, nos barbarizamos nas figuras humanas-animais que vemos nesse mundo sem civilização, sem sociedade, sem lei e sem contratos sociais.
Se um dia já nos perguntamos como seria o mundo sem quaisquer uma dessas coisas, a obra nos dá uma resposta pessimista sobre tudo. E se um dia já fomos capazes de nos perguntar até que ponto um homem seria capaz de ir pela sobrevivência, o filme nos responde em uma frase de Hobbes: o homem é o lobo do próprio homem. Contudo, nem Hobbes contava com um sentido tão literal, creio eu.
Em uma nota?
8.5
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
O Bom Coração
O Bom Coração
Direção: Dagur Kári
Roteirista: Dagur Kári
Elenco: Paul Dano, Brian Cox, Isild Le Besco
Do que se trata?
O filme é a história de mudança de duas personagens, Lucas, um morador de rua com uma tentativa de suicídio no pulso, e Jacques, um dono de bar já em idade avançada, bruto, grosso, já conhecido da emergência de um hospital com seis infartos de coração, que vive os dias em amargura e desprezo. Os dois vivem sem ter consciência um do outro, dois opostos não-complementares, até que se conhecem num hospital, Lucas depois de ter sido salvo da sua escolha de morrer, e Jacques com mais um ataque cardíaco. Cria-se um laço entre eles e Jacques, idealizando que a morte já está lhe cutucando as costas, adota o outro para ser seu aprendiz e herdeiro no oficial ao qual dedicou boa parte de sua vida: o bar.
Como realmente é?
Uma bela história de valores e mudança. Os dois protagonistas são claramente antagônicos: um é morador de rua, generoso em ponto inacreditável, sentimental e sincero, enquanto o outro é apenas um dono de bar grosseiro, rude, sem amigos ou família e amargo, bem amargo. Porém, é um dono de bar está perto da morte; achar alguém para continuar o bar é uma necessidade. E assim, o dono de bar e o morador de rua suicida se encontram e juntam, um na tentativa inconsciente, o outro na consciente, de mudar o outro. Se por um lado Lucas precisa ser o novo barman, o ofício não permite ser generoso, e
se Jacques está prestes a morrer, talvez a vida precise de um pouco mais de sentido e bondade.
O que eu achei?
Um filme depressivo e bonito, bem bonito, com uma estética fria de tons de cinza e azuis sem vida, que dão um aspecto bem dramático e triste ao ambiente. As duas atuações protagonistas são excelentes e beiram a perfeição, com um ator bem jovem no elenco, Paul Dano, mas que parece ter tomado gosto por fazer filmes mais independentes e personagens quase sempre profundos. Se no Pequena Miss Sunshine ele faz o existencial irmão mais velho, aqui ele interpreta um bondoso e ingênuo morador de rua com uma maestria belíssima.
A história começa com a, talvez tardia, percepção de Jacques que ele está velho e está para morrer, e que quando a Morte vier lhe pegar, o bar, ao qual ele parece atribuir uma alma própria, irá fechar. Logo, ele precisa de alguém para quem ensinar todas as suas experiências em ser dono de bar e que possa garantir a continuidade do lugar. Entre tantas as opções possíveis, eis que surge Lucas, um morador de rua que vive à margem da sociedade, sem ter praticamente nenhum conhecimento das regras que regem a sociedade, e tampouco com experiência para ser um dono de bar. Contudo, ele não possui nada e nem vontade de viver, então Jacques decide acolhê-lo e ensiná-lo.
O roteiro poderia ter caído na total nostalgia e depressão, evocando sempre a tristeza que persegue o velho e amargo Jacques, contudo acertou na construção de Lucas: apesar de não ter vontade de viver, ele consegue irradiar quase que uma alegria. E, se mantendo entre o drama e um humor retratado nos pequenos detalhes da relação entre os dois, o roteiro caminha muito bem e se estrutura de uma forma muito boa. Entretanto, há também uma ingenuidade no conjunto da obra; não apenas o Lucas que é ingênuo, mas sim o roteiro em si. Tentando sempre trazer à tona esperança e coisas boas, o roteirista e também diretor falhou na missão de humanizar as personagens; as duas são utopias existenciais. Mas, se não há a capacidade de se enxergar numa delas, há a salvação: se encontrar em ambas ao mesmo tempo, ou seja, hora nos vemos no amargo Jacques, e hora no bondoso e compreensivo Lucas. Parece que a tragédia da ingenuidade de roteiro se transformou numa plena salvação se juntarmos os dois em um só: temos o ser humano em si.
Meio bem, meio mal, ora belo, ora repugnável, os dois personagens se mesclam e se fundem para, no final, serem os seres humanos tão buscados o filme inteiro. Todavia, isso não encobre as falhas ingênuas de roteiro, e tampouco anula a beleza do filme. Talvez, só acabe por atenuá-la; e talvez a missão do diretor/roteirista tenha sido cumprida: a bondade correu a amargura,
Em uma nota?
8,5
Direção: Dagur Kári
Roteirista: Dagur Kári
Elenco: Paul Dano, Brian Cox, Isild Le Besco
Do que se trata?
O filme é a história de mudança de duas personagens, Lucas, um morador de rua com uma tentativa de suicídio no pulso, e Jacques, um dono de bar já em idade avançada, bruto, grosso, já conhecido da emergência de um hospital com seis infartos de coração, que vive os dias em amargura e desprezo. Os dois vivem sem ter consciência um do outro, dois opostos não-complementares, até que se conhecem num hospital, Lucas depois de ter sido salvo da sua escolha de morrer, e Jacques com mais um ataque cardíaco. Cria-se um laço entre eles e Jacques, idealizando que a morte já está lhe cutucando as costas, adota o outro para ser seu aprendiz e herdeiro no oficial ao qual dedicou boa parte de sua vida: o bar.
Como realmente é?
Uma bela história de valores e mudança. Os dois protagonistas são claramente antagônicos: um é morador de rua, generoso em ponto inacreditável, sentimental e sincero, enquanto o outro é apenas um dono de bar grosseiro, rude, sem amigos ou família e amargo, bem amargo. Porém, é um dono de bar está perto da morte; achar alguém para continuar o bar é uma necessidade. E assim, o dono de bar e o morador de rua suicida se encontram e juntam, um na tentativa inconsciente, o outro na consciente, de mudar o outro. Se por um lado Lucas precisa ser o novo barman, o ofício não permite ser generoso, e
se Jacques está prestes a morrer, talvez a vida precise de um pouco mais de sentido e bondade.
O que eu achei?
Um filme depressivo e bonito, bem bonito, com uma estética fria de tons de cinza e azuis sem vida, que dão um aspecto bem dramático e triste ao ambiente. As duas atuações protagonistas são excelentes e beiram a perfeição, com um ator bem jovem no elenco, Paul Dano, mas que parece ter tomado gosto por fazer filmes mais independentes e personagens quase sempre profundos. Se no Pequena Miss Sunshine ele faz o existencial irmão mais velho, aqui ele interpreta um bondoso e ingênuo morador de rua com uma maestria belíssima.
A história começa com a, talvez tardia, percepção de Jacques que ele está velho e está para morrer, e que quando a Morte vier lhe pegar, o bar, ao qual ele parece atribuir uma alma própria, irá fechar. Logo, ele precisa de alguém para quem ensinar todas as suas experiências em ser dono de bar e que possa garantir a continuidade do lugar. Entre tantas as opções possíveis, eis que surge Lucas, um morador de rua que vive à margem da sociedade, sem ter praticamente nenhum conhecimento das regras que regem a sociedade, e tampouco com experiência para ser um dono de bar. Contudo, ele não possui nada e nem vontade de viver, então Jacques decide acolhê-lo e ensiná-lo.
O roteiro poderia ter caído na total nostalgia e depressão, evocando sempre a tristeza que persegue o velho e amargo Jacques, contudo acertou na construção de Lucas: apesar de não ter vontade de viver, ele consegue irradiar quase que uma alegria. E, se mantendo entre o drama e um humor retratado nos pequenos detalhes da relação entre os dois, o roteiro caminha muito bem e se estrutura de uma forma muito boa. Entretanto, há também uma ingenuidade no conjunto da obra; não apenas o Lucas que é ingênuo, mas sim o roteiro em si. Tentando sempre trazer à tona esperança e coisas boas, o roteirista e também diretor falhou na missão de humanizar as personagens; as duas são utopias existenciais. Mas, se não há a capacidade de se enxergar numa delas, há a salvação: se encontrar em ambas ao mesmo tempo, ou seja, hora nos vemos no amargo Jacques, e hora no bondoso e compreensivo Lucas. Parece que a tragédia da ingenuidade de roteiro se transformou numa plena salvação se juntarmos os dois em um só: temos o ser humano em si.
Meio bem, meio mal, ora belo, ora repugnável, os dois personagens se mesclam e se fundem para, no final, serem os seres humanos tão buscados o filme inteiro. Todavia, isso não encobre as falhas ingênuas de roteiro, e tampouco anula a beleza do filme. Talvez, só acabe por atenuá-la; e talvez a missão do diretor/roteirista tenha sido cumprida: a bondade correu a amargura,
Em uma nota?
8,5
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