segunda-feira, 15 de abril de 2013

Oblivion

Oblivion
DireçãoJoseph Kosinski.
RoteiristasJoseph Kosinski, Karl Gajdusek e Michael Arndt.
ElencoTom Cruise, Morgan Freeman, Olga KurylenkoAndrea Riseborough.

Do que se trata?
Oblivion conta a história de Jack Harper (Tom Cruise), um homem que vive na Terra num futuro um pouco distante, devastada após a destruição da lua e de uma invasão alienígena que fora contida com bombas nucleares, destruindo a maioria dos invasores, mas deixando o planeta sem condições para se viver.
Ao lado de Victoria
 (Andrea Riseborough), sua companheira, tanto  profissional quanto romanticamente, ele monitora e faz a manutenção de alguns drones de segurança que o planeta possui, programados para proteger estações que sugam o que resta das água do planeta, gerando energia para uma estação espacial chamada Tet (que comanda,monitora e auxilia o trabalho de Jack e Victoria, e recolhe sobreviventes humanos) e também para Titã, a maior lua de Saturno, onde os sobreviventes terráqueos passaram a viver.
Faltando apenas duas semanas para abandonar o planeta condenado, os dois enfrentam uma série de complicações, dezenas de eventos problemáticos, principalmente o surgimento de uma câmara com uma mulher que Jack andava sonhando(Olga Kurylenko), apesar de não se lembrar de como a conhece, já que as memórias dele e de Victoria foram apagadas com o objetivo de que eles não passassem informações aos “Saqueadores” (os alienígenas invasores que restaram. Eles sabotam os drones e as estações de sucção de água sem nenhum motivo aparente) e comprometer sua missão.

Como realmente é?

Um sci-fi bem pouco original. O visual lembra o trabalho anterior de Kosinski (Nos prédios e veículos, só que a presença massiva de cores neutras deixa bem mais sem graça que os de Tron- O Legado) e lembra também outros trabalhos de ficção científica, como o recente Prometheus , os antigos Planeta dos Macacos e Mad Max, além de outras mídias como a série de TV da  NBC  Revolution e o ainda inédito jogo The Last of Us ( No visual da terra devastada, pós destruição da Lua, invasão alienígena e holocausto nucelar).
A história por sua vez, nos remete também de outro filme pós-apocalíptico, Wall-E, além de algumas ficções científicas que não citarei aqui para não estragar as surpresas do filme (que são muitas, diga-se de passagem).
Não é um filme que marca a memória, nem que prenda a atenção, apesar de exigi-la, já que ao perder alguma informação é bem capaz de que você fique sem entender o resto, principalmente da metade para o final do filme, quando as já citadas reviravoltas começam e não param até a última cena.
Apesar de ter como promessa (até pela escalação de um dos ícones de ação como protagonista) cenas de ação, estas se resumem a tiroteios xoxos e curtos, tirando uns pouquíssimos momentos de tensão atmosférica, quando Jack explora no escuro, que tem até um suspense interessante.

O que eu achei?

Eu diria que é um filme bem, bem mediano. Apesar de parecer bastante com outras já mostradas por aí, a atmosfera é até bem criada e junto de uma fotografia competente, mas sem novidades, graficamente o filme agrada. A trilha sonora e os efeitos de som também fazem um ótimo trabalho, tirando talvez o som dos drones, que eu simplesmente não gostei e achei pouco criativo. O contexto da história e as reviravoltas foram até interessantes, mas nada gritante ou que mereça muito alarde ou destaque.
No campo das atuações, quem me chamou atenção foi Andrea Riseborough, como a centrada Victoria. Sua personagem aliás, é a mais interessante e desenvolvida. Já o resto do triângulo amoroso principal, Cruise (trabalhando aqui no automático) e Olga Kurylenko ( a mesma cara de espanto/sofrimento  filme todo) são personagens bem rasos, que falham ao tentar emocionar e os dois estão completamente sem química. O que dizer de Morgan Freeman e Nikolaj Coster-Waldau (o Jaime Lannister da série Game of Thrones) que são subaproveitados, papéis totalmente dispensáveis e curtos.
Os simbolismos do filme são fracos e podem passar despercebidos que não farão diferença na interpretação nem no aproveitamento do filme. As cenas de ação, como já dito, não empolgam, não inovam, são só um bocado de tiros e explosões.
A meia hora final de filme pode fazer quem está assistindo se perder no meio de tantos flashbacks e reviravoltas (essas pelo menos são até plausíveis e não Deus Ex Machina, nem coisa do tipo, como alguns sci-fis) o que atrapalha a compreensão total da história, ainda mais para os desatentos que se deixaram algo passar vão ficar completamente perdidos.
Em resumo, o filme não traz novidade nenhuma, não é daqueles que te faz vidrar os olhos na tela, mas também não é nenhum martírio assisti-lo.

Em uma Nota?

6,0. – Porque eu estou de bom humor ;P

Uma curiosidade legal?
O roteiro do filme é inspirado numa HQ de mesmo nome, escrita pelo próprio 
Joseph Kosinski e por Arvid Nelson, que nunca foi publicada.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ruby Sparks – A Namorada Perfeita


Ruby Sparks – A Namorada Perfeita
Diretores
: Jonathan Dayton, Valerie Faris.
Roteirista:  Zoe Kazan.
Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan, Annette Bening , Antonio Bandeiras.

Do que se trata?
O  filme conta a história de um escritor chamado Calvin, um cara pouco sociável, que interage basicamente com seu cachorro Scotty e seu irmão Harry, que está em crise de criatividade depois de ter feito um único Best-Seller que está para se tornar um clássico da literatura americana. Ele então começa a sonhar com uma garota, e, por conselho do seu psicólogo, resolve escrever sobre ela. Eis que então, um dia, ela magicamente aparece no apartamento dele. Viva, falando, do jeito que ele escreveu. Depois de um pouco de resistência em aceitar o fato que sua personagem tinha ganhado vida, Calvin vê que não está enlouquecendo e que as outras pessoas também interagem com Ruby e começa um romance com aquela que ele considera ser a garota ideal.

Como realmente é?
É um retrato bastante honesto sobre como é a vida a dois. Sobre como as pessoas tentam moldar umas as outras num relacionamento e acabam esquecendo a parte mais importante sobre o parceiro: É uma pessoa, tem livre arbítrio.

O que eu achei?
É um dos meus filmes favoritos. O modo como ele fala sobre o amor e todas as outras coisas que vem junto, é simples e impressionantemente verdadeiro. Harry diz a Calvin no começo do filme :“Escreva sobre o que você sabe, e você não sabe nada de como estar num relacionamento” , o que naquele momento era verdade. O filme mostra a ele ( e consequentemente a nós) o que realmente é uma vida em casal. O começo onde tudo é ás mil maravilhas, onde os dois são perfeitos e feitos um pro outro. Depois, a descoberta daquelas coisas no outro que começam a nos incomodar, e então pensamos que podemos mudar ela. Esquecemos que se mudarmos a pessoa, ela deixa de ser aquela pela qual nos  apaixonamos.Todos nos filmes estão completamente entregues aos personagens, e a química do casal principal é ótima.  Acho que nessa nova onda de filmes românticos “indie” esse é um dos melhores, ao lado de “(500) Dias com Ela”. O bom deles é que são bem honestos, sem serem piegas e sem deixarem de ser otimistas. Além de falar sobre relacionamentos, o filme fala também é meio meta, falando das dificuldades de se escrever uma segunda obra quando a primeira foi um sucesso tão estrondoso, de como não é fácil se manter humilde quando todos a sua volta te chamam de gênio entre outras coisas. Na minha opinião, é um filme que deve ser visto e revisto sempre que der.

Em uma nota?
10.0- Daria até mais.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Deus da Carnificina

Deus da Carnificina
Direção: Roman Polanski
Roteiristas: Yasmina Reza e Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly

Do que se trata?
Então, o filme é a história de uma tarde num pacato apartamento em New York, onde estão reunidos dos casais visualmente diferentes. De um lado Penelope e Michael, ela uma amante de arte e escritora, preocupada coma África e com a humanidade, ele um simples vendedor de peças e ferramentas hidráulicas, de natureza aparentemente calma e dócil. Do outro lado, Nancy e Alan, ela uma corretora e ele um grande advogado com o celular sempre no bolso do sobretudo. Com a missão de resolverem uma briga entre seus filhos, Nancy e Alan vão até o apartamento de Michael e Penelope para conversarem e acharem uma solução civilizada.


Como realmente é?
É um filme com um jeito bem diferente de ser feito, praticamente todo filmado num ambiente só, num espaço de tempo curto, talvez tudo efeito de ter sido adaptado de uma peça teatral com mesmo nome. E é também um daqueles filmes que são como as águas de um lago, que refletem o mundo acima delas primeiro na calmaria de estarem adormecidas, mas que aos poucos começam a revelar o que realmente as move: o caos. A desarmonia que sempre há em tudo o que não vive em repouso.

O que eu achei?
Eu achei ele bom pra caramba, um excelente retrato do caos da civilização. Não julgo ser nenhuma obra-prima, e o Polanski certamente já realizou obras melhores, porém o filme não deixa de ser muito bom por causa. Mesmo com as dificuldades de se adaptar para o cinema uma história que foi toda criada com as barreiras e limitações do teatro, o filme consegue ser muito bem estruturado.
A combinação das personagens são os ingredientes para a torta do caos. Uma mulher engajada com os direitos humanos, África e o futuro da humanidade, casada com um homem totalmente indiferente à vida, uma corretora que sentimos lutar a cada segundo para preservar sua expressão calma e ativa, sua pose de mulher de negócios que também é uma boa mãe e dona de casa, casada com um mais que cínico advogado, sempre preso ao telefone, o típico homem que jamais teria realmente tempo de estar sentado numa sala para discutir sobre uma briga de crianças. Talvez a única personagem honesta e limpa de máscaras de todo o filme, interpretado numa atuação majestosa do Christoph Waltz (também conhecido como o Coronel Hans Landa do "Bastardos Inglórios"). Não são necessários mais que 15 minutos com ele em cena para que já comecemos a sentir um certo nojo do celular, da sua personagem e do seu humor negro descarado. Embora todo o elenco esteja extremamente bem, e conduza com perfeição suas personagens em constante mutação, ele ainda merece um destaque maior juntamente com a Kate Winslet. Eles estão majestosamente deprimentes em suas personagens.
Junto com o roteiro ácido, e em algumas reflexões até indigesto, porém sempre na medida de equilibrar a filosofia do argumento com o humor de não tornar a obra pedante nem cansativa, temos uma fotografia diferente. Na verdade, todo o filme tem o jeito diferente que eu já mencionei. Um tratamento meio teatral, ações bem carregadas de cargas dramáticas, a ação restrita a um único espaço e um único tempo, uma fotografia marcada ora por closes, ora por visões panorâmicas do cenário.
E como chave e argumento principal, a desconstrução da civilização. A ruptura da camada de gelo que criamos para cobrir nossa verdadeira essência ou natureza, que mantemos para sustentar a imagem de mundo civilizado, regido por leis e moral, pelo amor ao próximo e ao bom funcionamento da sociedade. Que encobre o egoísmo de nossas mentes, a hipocrisia de nossos ideais cristãos. Porém, o filme vai além. Mais que destruir a camada de gelo e mostrar que talvez a civilização não seja nada mais que um devaneio do imaginário coletivo, somos direcionados a outro ponto: à realidade do caos.
Ao caos enquanto a realidade da civilização.

Em uma nota?
8.5

domingo, 20 de maio de 2012

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Direção: Michel Gondry
Roteirista: Charlie Kaufman
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson

Do que se trata?
Se trata da história de Joel, que se vê perdido após sua namorada, Clementine, tê-lo deixado. Porém, mais do que a dor de ter sido abandonado, ele precisa lidar com o fato dela ter ido além: recorrido a um estranho tratamento que promete, e consegue, apagar totalmente alguém da sua memória. E, movido pela raiva por ter sido deletado no sentido mais real da palavra, Joel embarca também no tratamento para apagá-la de sua vida.


Como realmente é?
Mais um daqueles filmes que fica difícil comentar sem correr o risco de estragar as surpresas. Ele é muito bem amarrado e muito louco no seu fluxo de ideias; me deixa meio atado quanto o que eu posso falar sobre. Duas palavras além do limite e seria melhor nunca ter escrito essa crítica. Mas ele é, acima de tudo, uma das viagens que você pode ter o maior prazer de vivenciar na sua vida toda. Um daqueles filmes que têm o poder mágico de te acertar na espinha dorsal da existência.

O que eu achei?
Acho que ficou um pouco claro pelo tópico acima. Eu achei ele algo indescrítivel, mas no sentido bom da palavra. No melhor dos sentidos possíveis. A história é bem sem pé nem cabeça, bem inexplicável, até porque muita coisa ocorre dentro da mente do Joel e não no mundo material, mas nos esquecemos que é uma mente, porque é tudo real. Tão real quanto eu aqui escrevendo e alguém aí lendo, embora tanto uma coisa quanto a outra só exista na nossa mente.
E desse jeito, dançando num muito bem elaborado paralelo realidade-fantasia, o roteiro se torna excelente. Ele nos puxa de um lado ao outro sem avisos prévios; nos impulsiona através de efeitos especiais bem controlados para viajar sem sentir o tempo através das memórias e para voltar à realidade. E, tudo que parece não ter o menor sentido, começa a fazer aos poucos; acho que, no fundo, a chave do filme está nos detalhes que passam meio desapercebidos.
É um roteiro muito bem amarrado em seus detalhes e momentos, pois nada se torna desnecessário à trama. Tudo é essencial para que ela tenha sentido. Porém, mesmo o sentido podemos acabar abrindo mão durante o filme; podemos nos dar o luxo de esquecer que há uma lógica na vida e simplesmente torcer pelo Joel e pela Clementine, pois é exatamente isso que acabamos fazendo. Não há como fugir de simpatizar com eles; ele, o cara de poucas palavras, com dor no olhar, ela a menina que tenta passar segurança e vida, mas que sentimos estar perdida. Eles o casal que podia ter dado certo, eles os dois que estão se esquecendo um do outro.
Para dar corpo a um roteiro fantástico, tudo parece dar certo. As duas atuações fenomenais dos principais. Como é bom ver o Jim Carrey sem sua marca de comédia pastelão norte-americana, sem suas caras e bocas habituais. Nem parece o mesmo Jim Carrey; acho que é um daqueles papéis que exige a real força do ator. Assim como a Kate Winslet, premiada com o Oscar de melhor atriz com razão. Ao mesmo tempo que ela nos passa a força interna que há dentro da Clementine, nos deixa vislumbrar o vazio interno. E, para completar, o filme tem uma das fotografias mais especiais que eu já vi, cheia de cortes e ângulos diferentes, uma iluminação atípica, uma sensibilidade além do normal para as comédias românticas. A mesma sensibilidade que faz esse filme especial, que nos faz perdoar seus clichês de comédia romântica e simplesmente nos move a querer embarcar dentro do mundo deles dois, que aos poucos vai se destruindo.
Esse é o todo que é capaz de atravessar uma faca pela sua alma e despedaçar várias coisas. Não é apenas um filme sobre apagar as memórias, sobre esquecer alguém; é sobre esquecer o que deveria ser importante, sobre o que é importante. Os pequenos detalhes, as pequenas memórias felizes, tudo o que deve-se lembrar e se deixa perder dentro do emaranhado gigante de lembranças que incorporamos todos os dias.
As memórias felizes que são incendiadas pelas tristes.

Em uma nota?
10,0 - a sensibilidade vai além dos clichês. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Keane, Paul Simon.

Do que se trata?
O filme é a história do conturbado relacionamento entre Alvy Singer, um neurótico comediante nova iorquino totalmente apaixonado por sua cidade, que faz terapia há 15 anos sem grandes resultados, e a jovem Annie Hall, uma mistura de cantora e atriz vinda do interior norte-americano e um tanto perdida dentro do caos da cidade grande. E, entre términos e reatadas, brigas e momentos de paixão, imersos em suas dúvidas individuais, eles seguem, ou quase, a relação.



Como realmente é?
É uma grande viagem no quesito relacionamento. Em nenhum tipo de sinopse seria possível ter um breve vislumbre do filme, além do mais óbvio, sem que se estrague o efeito surpresa. "Mas, além de você ter falhado na sinopse, como ele realmente é?". Ah, ele? Ele é a perfeita fotografia panorâmica detalhada de como pode ser uma relação a dois.

O que eu achei?
Eu achei bom pra cacete. Não tem muito como fugir de elogiar o filme; ele já começa te cativando desde o início, ao mesmo passo que te assusta, com o Woody Allen, sempre com seus trejeitos de neurótico, em seu monólogo de relacionamento. Não sabemos se sentimos pena do Alvy ou se rimos da maneira como ele expõem tudo.
O roteiro é simplesmente fenomenal. É fato que algumas piadas acabam sendo um tanto seletivas, ou satirizando o método de vida norte-americano em geral, ou dançando com figuras intelectuais e obras literárias. Porém, no campo da narrativa, o roteiro caminha muito bem com suas loucuras. Temos a sensação que não existe uma certa linearidade do tempo; o Tempo dança de um lado para o outro sem que percebamos de verdade. Não observamos claramente o início, o meio e o fim, várias vezes, de um relacionamento; temos diversas fases, tanto boas como ruins, do mesmo relacionamento se apresentando sem um verdadeiro meio. Somos encaminhados da paixão à crise sem pausa para sentir a tempestade. Mas, o que poderia desconstruir a história e deixá-la cheia de vazios, apenas torna-a mais interessante e evita que ela caia na perdição de ser a história de um amor que nasce, cresce e morre. Nós vivemos a história do Alvy e da Annie, às vezes só o Alvy e suas crises, às vezes só a Annie e suas dúvidas, e às vezes os dois se apaixonando e se perdendo.
E, para dar conta do roteiro totalmente atípico de história de amor, há o ator-diretor-roteirista Woody Allen e a Diane Keaton em estado de graça. Há uma naturalidade, uma afinidade incrível entre eles. Você realmente acredita que a Diane é uma perdida mulher, com sorriso de criança, abarrotada de dúvidas e desencaminhada, que não sabe se canta, se atua. Você também acredita fielmente que o Woody é aquele sujeito meio esquisito, que só sabe falar rápido e gaguejando um pouco, que só sabe ver no mundo tristeza e miséria, entupido de neuroses e insegurança. E o mais fascinante: eles te levam a acreditar que o romance deles realmente pode dar certo, mesmo que tudo diga que jamais daria.
No fundo, não é o romance que importa, mas sim a sensação de ver ambos crescendo. A história de amor, o namoro-casamento deles, está sempre em primeiro plano, seja ele real ou apenas uma construção do passado, porém o mais importante e delicioso do filme é sentir a mudança que há no Alvy e a na Annie. Essa é a verdadeira beleza do efeito temporal e do filme: poder tocá-los como entes separados, e vê-los como entes unidos.

Em uma nota?
10.0

domingo, 25 de março de 2012

Medianeras

Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Direção: Gustavo Taretto
Roteirista: Gustavo Taretto
Elenco: Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Inés Efron e Carla Peterson

Do que se trata?
O filme narra o que seria a possível história de amor entre Martin, um jovem solitário, hipocondríaco, abarrotado de neuroses, e Mariana, uma jovem igualmente solitária, que está reaprendendo a ver a vida sozinha. Os dois, perfeitos um para o outro, moram na mesma rua de uma calorosa e efervescente Buenos Aires, em prédios um de frente para o outro, separados apenas por um estabelecimento, mas que mesmo assim se cruzam sem se olhar, se aproximam sem nunca se encontrar.



Como realmente é?
Muito diferente de tudo o que se pode imaginar. Acho que não há sinopse, ou tentativa de, que consiga passar a idéia do filme, ainda mais sem fazer ele parecer uma simplória e até descartável obra sobre amor não-concretizado. Mas, mesmo que até a minha possa passar essa imagem, ele não é nada disso, e sim uma das mais bem-feitas obras sobre a solidão de se viver cercado de pessoas que eu já tive o prazer de ver.

O que eu achei?
Eu achei ele fenomenal. Fico meio sem palavras diante dele, porque as sensações são difíceis de descrever, e ele se mostra como um filme muito mais visual que auditivo; o roteiro é majoritariamente muito simples, menos nos primeiros minutos do filme. Parece que o diretor e roteirista gastou, sabiamente, toda a sua cota de palavras e filosofia nos dois monólogos de apresentação das personagens. Mas, o que poderia ser algo chato e cansativo, pois nem sempre monólogos são fáceis de se aguentar, foi feito com tanta sensibulidade e simplicidade, mesclados com humor negro, que só te faz admirar logo de cara o filme.
Já como a maioria da cota de palavreado foi gasta com os primeiros minutos do filme, o restante caminha com diálogos simples, mas nem por isso menos delicados. As próprias personagens, encantadoras e cativantes a seu jeito, cheias das neuroses criadas pela vida de estar sempre conectado a todos, entretanto distante de tudo, criam a exigência de um roteiro com falas simples e essenciais. O Martin e a Mariana são as típicas pessoas que, de tanto viverem dentro de si, se esqueceram de como se relacionar com o resto do mundo; ele trancafiado dentro de seu computador, ela acorrentada à sua solidão. E, para fazer justiça a personagens que exigem tanta simplicidade mas que são tão complexas, as atuação foram excelentes. Os olhares, os sorrisos, os trejeitos, tudo soa natural e encantador na pele dos atores; parece que eles são exatamente como os seres que retratam: vítimas da vida nas grandes cidades.
Enquanto isso, para dar o corpo final a toda a sensibilidade do roteiro e das atuações, há uma fotografia espetacular, que transporta como terceiro protagonista a arquitetura de Buenos Aires. Os prédios, as janelas, as varandas, os espaços depredados, as plantas que lutam contra o concreto da cidade, tudo isso se unifica num corpo fundamental para o filme, explorado no início, e vivo em quase todo o tempo. Uma fotografia detalhista, singela, com o afastamento necessário para não dar a impressão de interferir no ambiente; uma fotografia perfeita.
E, além de romper com os clichês do próprio tema abordado, a obra consegue ir mais além: ela rompe com os clichês envolta da sociedade moderna. Não se deixa levar pelo recente clichê de atacar a qualquer custo o mundo das redes, o abismo artificial que nos cerca, mas critica subjetivamente esse novo modelo de vida. No fundo, não é a internet nem a virtualidade das relações e coisas que separam eles dois, e tampouco o "abismo" entre seus dois prédios quase vizinhos, mas sim o ver e não enxergar. Não é a internet em si, porém é a aura que as metrópoles parecem sugar para si: a indiferença é o que os separa. A indiferença que é a grande vilã do filme.
E talvez a indiferença que seja a grande vilã de nossas vidas; o constante estar junto e sozinho. A solidão que é se estar cercado de pessoas.

Em uma nota?
10.0

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Mulher de Preto

A Mulher de Preto
Direção: James Watkins
Roteirista: Jane Goldman
Elenco: Daniel Radcliffe, Janet McTeer, Ciarán Hinds, David Burke, Shaun Dooley, Alisa Khazanova, Sidney Johnston, Mary Stockley, Alexia Osborne

Do que se trata?
O filme conta a história de Arthur, um jovem advogado londriano que mora apenas com seu filho e a babá, carregando nas costas a dor pela perda de sua mulher durante o parto, e que, sendo ameaçado de perder o emprego na firma na qual trabalha, precisa ir realizar um serviço num vilarejo no interior da Inglaterra. Porém, o que era apenas um serviço comum de resolução de papeladas de herença, se transforma numa imersão em segredos, traumas e misteriosas mortes de crianças ao longo da história do vilarejo.





Como realmente é?
Mais um típico filme de terror, contando com todos os elementos padrões desse tipo de cinema: o personagem traumatizado, o vilarejo longínquo e imerso numa gélida neblina, o espírito que insiste em continuar se agarrando ao nosso plano existencial, a névoa sombria, o casarão abandonado. Mas, apesar de ser mais um típico filme de terror, ele ainda é capaz de provocar sustos e medo, mesmo que seja apenas por um período de tempo.

O que eu achei?
Um filme que tinha potencial, mas que se perdeu. Mesmo com a história se solidificando em cima de uma das temáticas dogmas do cinema de terror e se apoiando no uso de crianças com olheiras negras e olhares perdidos, o enredo conserva algumas gotas de originalidade. Porém, essas gotas se esvaem conforme a trama segue seu rumo e seus clichês, se não se empilham, se fundem, construindo a total perda de ritmo que ocorre na metade do filme. Se durante a primeira metade do filme ele transborda sustos e cenas bem elaboradas, depois dela ele consegue caminhar em completa perdição, e todo o terror se transforma na comédia que são as obras de terror mal feitas.
Enquanto isso, a atuação do Daniel Radcliffe (eterno Harry Potter, para a geração que acompanhou a saga) consegue até ser boa, mesmo com ele na pele de uma personagem um tanto fraca. O Arthur se mostra um cara traumatizado pela perda da mulher durante o parto de seu único filho, entretanto esse trauma não é explorado a fundo ou tão pouco utilizado para engajar a trama, sendo útil apenas no final da obra de maneira quase forçosa para encerrá-la.
Porém, para tentar salvar o filme, ele conta com uma fotografia extremamente bem feita, ao menos na primeira metade do filme. Com cortes precisos e mudanças de angulação e posicionamento das câmeras, a fotografia intensifica toda a tensão das cenas, sendo capaz de quase multiplicá-la, sempre atenuando os detalhes e provocando um constante medo e sobressalto. Uma fotografia detalhada e sensível, digna de roteiros melhores.
Na totalidade, infelizmente, é um filme que deixou bastante a desejar. A quebra de ritmo muda totalmente a sensação que ele é capaz de provocar em você; de intrigante e assustador, ele se transforma em algo previsível e digno de risadas. Não são necessários mais que vinte minutos após essa quebra para que se junte todos os pedaços e o enredo fique armado na sua mente. E ele não apresenta a capacidade de matar as suas expectativas: um típico refém dos "dogmas" do terror comercial.
Parece que o Daniel escolheu o filme errado para se projetar fora de sua eterna sombra. Parece que o roteirista teve as idéias erradas. Parece que o diretor se fechou no medo de ousar, na covardia de tentar. E parece que o filme foi uma decepção, mais uma decepção.

Em uma nota?
7.0