sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Rosa Púrpura do Cairo

A Rosa Púrpura do Cairo
Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello

Do que se trata?
O filme fala sobre a história de como a vida de uma jovem garçonete chamada Cecília mudou completamente em dois dias. Dona de uma vida infeliz, com um marido grosseirão, constantemente bêbado e desempregado, ela tem como única válvula de escape para toda a infelicidade a sua paixão: o cinema. Entretanto, após ver tantas vezes no cinema o filme "A Rosa Púrpura do Cairo", algo inusitado acontece: o herói salta da tela e do mundo fictício para o real, e lhe propõem que o ensine como é o mundo real e que fuja com ele. Porém, devidos aos efeitos da fuga, o ator que deu vida ao herói vê sua carreira ameaçada, e parte em busca de sua criação para evitar uma catástrofe no mundo do cinema e se apaixona também por Cecília.


Como realmente é?
Uma viagem total do Woody Allen. Todo ambientado no cenário dramático e caótico da Grande Depressão norte-americana, o filme se constrói em cima da desesperança da vida real, tomada por insegurança, desemprego e miséria. Atormentada pela necessidade de sustentar sua casa, Cecília tenta sobreviver no trabalho de garçonete, porém seus pensamentos parecem sempre estar em outro lugar, no mundo da ficção bela e estável dos filmes que assiste no cinema, sendo até já conhecida no mesmo. Contudo, após sua demissão, ela se entrega a uma sala de cinema com o mesmo filme sendo exibido sem parar, até que o herói e galã se apaixona por ela e sua admiração pela obra e foge da tela.

O que eu achei?
Fabuloso. Fabuloso e encantador. Está na disputa com o "Manhattan" para ser o melhor filme do Woody Allen que eu já vi, mesmo sendo um estilo bem diferente. A história é uma loucura que eu nunca tinha visto antes: uma pergonagem de um filme ser capaz de sair da tela e criar existência no mundo real, mas mantendo suas características fictícias. Porém, é uma loucura extremamente bem feita e elaborada, que mantém um elo muito forte com a realidade. O elenco todo está muito bem, e a Mia Farrow melhor do que nunca, mas quem já viu muitos filmes do Woody Allen com ele atuando sempre vai sentir falta dele.
Enquanto isso, cômico, sutil, mirabolante, perfeito, o roteiro se constrói na dualidade ficção-realidade, mostrando como a vida de Cecília ora é estupenda, ora é sem graça, tudo dependendo da presença do herói fugido. Parece que para se ir do céu dos sonhos cinematográficos ao inferno da tristeza norte-americana basta apenas a presença ou ausência do herói. Entretanto, mais do que apenas mostrar essa dualidade, o roteiro materializa o efeito da arte como uma rota de fuga do mundo real. Dá para perceber nitidamente que existem duas Cecilias na obra: a espectadora do cinema e a garçonete trabalhora. É uma perfeita fábula de como a arte, e em especial o cinema, que se firma como uma quase personificação da vida humana, são capazes de alterar os rumos das pessoas, a partir do momento em que são mais do que escapatórias: são uma fonte, talvez inesgotável, de esperança para a própria vida.
Os filmes são muito mais que diversão para a Cecília; são, inconscientemente, uma maneira de valorizar o viver. São os sonhos que muitas vezes morrem dentro de nós, levados pela frieza de um mundo indiferente à dor. São as vidas que gostaríamos de viver, e nunca vivemos.

Em uma nota?
10.0

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