domingo, 30 de outubro de 2011

Irreversível

Irreversível
Direção: Gaspar Noé
Roteirista: Gaspar Noé
Elenco: Monica Belluci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Philippe Nahon, Jo Prestia, Stéphane Drouot, Mourad Khima.

Do que se trata?
Caramba, este aqui é bem difícil. Mas vamos lá. O filme fala sobre a história de um casal, Alex e Marcus, que vivem uma vida feliz, até que, em uma festa, eles se desentendem e a Alex volta sozinha para casa, deixando o ex-namorado dela e amigo, Pierre, tomando conta do Marcus. Porém, durante essa volta, ela passa por um túnel, e é brutalmente estuprada por um homem conhecido como Solitária. Daí para frente, é a história dos dois homens apaixonados por ela em busca do estuprador para vingá-la como for possível, e nessa busca desenfreada, se metem pelo sub-mundo homossexual parisiense.

Como realmente é?
Bem além dessa sinopse. A estética é totalmente atípica; a história é contada do fim para o início, o que destrói em você qualquer possibilidade de se perguntar como as coisas vão terminar. Acho que é um tanto o contrário: você se pergunta como começou. Ou talvez nem isso, porque você já sabe que tudo começou com o estupro, então não há nada para se esperar (ou ao menos é nisto que você acredita), e o que te resta é silenciar, sentar e esperar serenamente pela cena chave de tudo, deixando crescer em você, a cada instante o seu ódio e nojo pelo estuprador. Entretanto, o filme não para aí.

O que eu achei?
Acho que provavelmente este vai ser um dos filmes mais difíceis para fazer uma crítica que eu vou ter na vida. Pra mim, ele é uma obra-prima. As atuações estão excelentes, a Monica Belluci como sempre linda, o Vincente Cassal muito bem no papel de Marcus, o namorado entupido de raiva e ódio, e o Albert Dupontel está perfeito como o ex-namorado erudito, controlado e um tanto derrotado, mas que, mesmo assim, parte junto com o Marcus na jornada por justiça com as próprias mãos.
A direção de arte e fotografia estão sensacionais, usando de uma câmera um tanto quanto alucinógena que viaja pelos cenários e nunca corta qualquer cena. Parece uma primeira pessoa que pertence e não-pertence ao ambiente, estando e não estando ali. Faz você se sentir um fantasma em meio ao todo, alguém que presencia cada coisa, porém que não tem corpo material para atuar. É agonizante.
A obra te passa as mais diversas sensações; te faz sentir nojo dos cenários deploráveis, pavor diante de um submundo homossexual de Paris que você não consegue conceber a idéia de existência, um atordoamento perante tanta violência. Contudo, se você está acreditando que o filme se retem a fortes, mas não necessariamente profundas, sensações, engana-se. Ele constrói dentro de você, aos poucos, em especial a partir do meio, a mais profunda tristeza possível.
O futuro você já tem idéia desde o começo, porém o passado ainda é uma variável sem conhecimento. E é nesta falta de conhecimento que o filme se prende e amarra depois da metade, retrocedendo até o que ocorreu antes do fatídico estupro. Eu me dou ao luxo de não comentar a cena do estupro, dizendo apenas que ela é uma das poucas cenas que me fez sentir pertubado e que, se eu tivesse visto num cinema, me teria feito cogitar a idéia de ir embora da sala. Se durante todo o filme você se sente um fantasma, uma presença imaterial dentro dos ambientes, mas que não faz questão de atuar para intervir, na cena do estupro você é exatamente o mesmo de uma forma amplificada e com a necessidade de atuar para impedir o que está diante dos seus olho. "Alguém precisa fazer algo para impedir este maluco. Mas não há ninguém! Eu preciso fazer algo", é um pouco do que se passa na sua mente, entretanto, você é um fantasma com a sensação de estar preso ao chão, bem como a câmera. Não há nada para se fazer além de sentar e sofrer com o espetáculo.
Daí para frente, ou melhor, para trás, o diretor alimenta em você um dueto entre uma felicidade e uma tristeza que te deprime. Acho que fazia tempos que um filme não me deixava tão deprimido, triste e meramente feliz ao mesmo tempo. A beleza do que vem depois da metade te passa uma felicidade, mas o saber do futuro cria a metamorfose da felicidade em abundante tristeza. É um efeito marcante e destrutivo desse filme.
E, para finalizar, o filme fecha com uma frase que pode ser a síntese de tudo, e talvez de toda a humanidade, de todas as coisas do universo: o tempo arruina tudo. E o que tempo arruina, é irreversível.

Em uma nota?
10.0 - é uma obra-prima.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Scott Pilgrim: Contra o Mundo

Scott Pilgrim: Contra o Mundo
Direção: Edgar Wright
Roteiristas:  Edgar Wright, Michael Bacall, Brian Lee O'Malley
Elenco: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Brandon Routh, Jason Schwartzman, Aubrey Plaza, Kieran Culkin, Brie Larson, Mae Whitman, Ellen Wong, Anna Kendrick, Mark Webber, Alison Pill, Satya Bhabha

Do que se trata?
A história toda gira em torno da vida de um cara, Scott Pilgrim, um pacato canadense de Toronto. Um cara meio atrapalhado, de raciocínio um tanto sagaz, tiradas engraçadas, um sorriso um tanto bobo, que te conquista logo. Sua vida é pacata, até conhecer uma misteriosa garota chamada Ramona, outra personagem que te conquista: vive uma fuga do passado, troca de cabelo a cada dez dias, emana desprezo com o olho no início, mas dá um sorriso doce volta e meia. O problema é: ela tem 7 Ex- Namorados do Mal, que integram "A Liga", e para ficar com a Ramona, o herói Scott precisará derrotar cada um deles.

Como realmente é:
Nada do que se espera. A sinopse te faz pensar em um filme banal e clichê, sobre adolescentes e suas problemáticas de relacionamento, mas o filme caminha muito bem numa aventura com toques de um refinado humor e pitadas de drama hora ou outra. O Scott é o típico cara maneiro, que leva a vida de uma maneira descompromissada e tranquila, mesmo que nós, espectadores, possamos sentir que nem tudo é sempre dessa maneira e, no fundo, há um algo de negro na história dele, enquanto a Ramona é a garota que carrega na alma o fardo de um passado no mínimo esquecível, porém que sempre volta para pertubá-la. A união perfeita, talvez.

O que eu achei?
Eu achei uma brilhante adaptação para uma série de quadrinhos consideravelmente grande. Já tive o prazer de ler todos os volumes (que no Brasil, apesar de serem 6, são vendidos como 3 livros, cada qual integrando 2 volumes do original), e posso afirmar que o quadrinho ainda é bem melhor e com mais detalhes. Só nele você é capaz de entender a vida do Scott.
Entretanto, o filme não fica tão para trás: é um baita filme. Com um ritmo um tanto frenético, desconcertante, ele te prende a atenção desde a música de abertura (a já conhecida abertura da Universal, porém toda feita em tons "clássicos" de jogos de videogame). O roteiro é sagaz e rápido: tem momentos que nem te dá tempo para respirar, mas em outros ele desacelera e deixa a cena por conta da música de fundo e do jogo de atuação. A dupla de protagonistas, e no fundo a equipe toda, está muito bem no filme, naturais, simpáticos, encarnando bem os seus personagens.
Uma fotografia simples toma conta do todo, usando de cores sempre e com um elétrico jogo de câmera, em especial nos diálogos, onde há cortes toda hora. E, para completar, o filme ainda ganha a sua simpatia com efeitos clássicos de videogame e quadrinho, ao mesmo tempo. Se numa hora você enxerga as barrinhas típicas de jogos, em outras você enxerga onomatopéias típicas dos quadrinhos.
Se você vir e gostar, vale muito a pena investir nos quadrinhos: são muito bons.
Mas o filme sozinho já é bom demais.

Uma nota?
9.0

Pequena Miss Sunshine



Pequena Miss Sunshine
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteirista: Michael Arndt
Elenco: Abigail Breslin, Greg Kinnear, Toni Collette, Alan Arkin, Steve Carell e Paul Dano.

Do que se trata?
O filme fala sobre algo bem simples: uma família como qualquer outra, um casal, dois filhos, um avô e um tio. Ou ao menos seria sobre isto, se o filme fosse algo simplório e sem-graça. Só que nenhuma família é tão normal assim, e é nisto que se cria a confusão engraçada que é o filme.
Mas o foco da história é: o membro mais novo da família, uma garotinha chamada Olive (Abigail Breslin), é convocada para participar de um concurso de Miss na Califórnia, e ,para ir, esta família, (a)normal (aviso desde o logo) precisará cruzar estados norte-americanos para chegar até o tão aguardado concurso "Pequena Miss Sunshine".


Como realmente é:
É aquele tipo de filme que a sinopse te engana. O tipo de filme que te dá uma rasteira quando você começa a sentir o que ele emana para além da tela. As personagens são reais, um tanto exageradas, porém são bem reais. É o pai que, como todo bom americano, vê o mundo dividido entre perdedores e vencedores, e com esta mentalidade, joga o futuro da família num plano de "8 Passos para o Sucesso". É a mãe que se vê cada vez mais sem forças, tendo de carregar o peso da família nas costas, trabalhar fora e acumular responsabilidades em casa, e ficando cada vez mais insanecida.
É o tio que tenta se matar, depois de uma desilusão amorosa homossexual que, de bônus, ainda destrói suas perspectivas profissionais.
É o garoto excluído e fascinado em filosofia (no caso dele, Nietzsche), que se exclui da família e do mundo para lutar pelo único sonho que acredita: pilotar aviões no exército.
É o avô, um ex-soldado de guerras, e atual viciado em heroína. (o segundo membro que tem mais sanidade na família inteira)
E, por fim, é a garotinha que tem um sonho. É a garotinha que você percebe nitidadmente que vai ser arrasada em qualquer concurso de beleza, gordinha, quatro-olhos (me perdoem os que usam óculos), a peça que não se encaixa no padrão de beleza. Mas que, mesmo assim, tem o sonho de tentar, e com esse sonho, mobiliza e força uma família inteira de zero em comum, a entrar numa kombi amarela e cruzar os EUA.

   O que achei:
Majestoso. Você não dá nada pelo filme, e acha que ele pode se reter a piadas grosseiras e forçadas, mas ele decide caminhar numa tênue linha entre drama e comédia. Todas as personagens são bem exploradas, e as atuações são dignas de lágrimas (de felicidade); é muito bom ver o Steve Carell, conhecido por comédias clichês como "O Virgem de 40 Anos" fazendo um filme totalmente independente, e mostrando um belo potencial. O Paul Dano, bem como a Abigail Breslin, que interpretam os filhos, dão um espetáculo; a naturalidade é absurda.
O roteiro é bom, evitando clichês, mas sempre espetando o absurdo; muitas situações ali são inimagináveis, porém até essas cenas ficam majestosas, bem calculadas para não deixar que o absurdo se torne a figura principal, mas sim a insanidade das personagens. É uma família insana, que acaba usando a sua insanidade, disfarçada sempre de normalidade, para conseguir sobreviver, e se juntar, com o objetivo de agradar a caçula. Talvez, no fundo, seja mais do que uma jornada para um concurso de miss, mas sim uma jornada para cada um deles achar o seu espaço dentro da própria família, que, se eu não estou indo longe demais na filosofia, seja como a sociedade. Um organismo vivo, e talvez já adoecido.
A fotografia é esbelta, muito bem feita, alguns planos longos, cenários bem escolhidos. Um primor.
E a direção? Sem comentários, a dupla de diretores consegue extrair o melhor de todos, e fazer um filme de drama com pitadas de um humor seco, amenizando o clima que podia ser de total depressão e nostalgia entre as personagens. O ritmo acaba ficando sempre num meio termo entre ser lento e ser rápido, o que pode incomodar a alguns, mas eu acabo adorando, porque permite que você sinta cada cena e absorva cada fala sem se sentir cansado do filme.

   Uma nota?
   8.5