segunda-feira, 11 de junho de 2012

Deus da Carnificina

Deus da Carnificina
Direção: Roman Polanski
Roteiristas: Yasmina Reza e Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly

Do que se trata?
Então, o filme é a história de uma tarde num pacato apartamento em New York, onde estão reunidos dos casais visualmente diferentes. De um lado Penelope e Michael, ela uma amante de arte e escritora, preocupada coma África e com a humanidade, ele um simples vendedor de peças e ferramentas hidráulicas, de natureza aparentemente calma e dócil. Do outro lado, Nancy e Alan, ela uma corretora e ele um grande advogado com o celular sempre no bolso do sobretudo. Com a missão de resolverem uma briga entre seus filhos, Nancy e Alan vão até o apartamento de Michael e Penelope para conversarem e acharem uma solução civilizada.


Como realmente é?
É um filme com um jeito bem diferente de ser feito, praticamente todo filmado num ambiente só, num espaço de tempo curto, talvez tudo efeito de ter sido adaptado de uma peça teatral com mesmo nome. E é também um daqueles filmes que são como as águas de um lago, que refletem o mundo acima delas primeiro na calmaria de estarem adormecidas, mas que aos poucos começam a revelar o que realmente as move: o caos. A desarmonia que sempre há em tudo o que não vive em repouso.

O que eu achei?
Eu achei ele bom pra caramba, um excelente retrato do caos da civilização. Não julgo ser nenhuma obra-prima, e o Polanski certamente já realizou obras melhores, porém o filme não deixa de ser muito bom por causa. Mesmo com as dificuldades de se adaptar para o cinema uma história que foi toda criada com as barreiras e limitações do teatro, o filme consegue ser muito bem estruturado.
A combinação das personagens são os ingredientes para a torta do caos. Uma mulher engajada com os direitos humanos, África e o futuro da humanidade, casada com um homem totalmente indiferente à vida, uma corretora que sentimos lutar a cada segundo para preservar sua expressão calma e ativa, sua pose de mulher de negócios que também é uma boa mãe e dona de casa, casada com um mais que cínico advogado, sempre preso ao telefone, o típico homem que jamais teria realmente tempo de estar sentado numa sala para discutir sobre uma briga de crianças. Talvez a única personagem honesta e limpa de máscaras de todo o filme, interpretado numa atuação majestosa do Christoph Waltz (também conhecido como o Coronel Hans Landa do "Bastardos Inglórios"). Não são necessários mais que 15 minutos com ele em cena para que já comecemos a sentir um certo nojo do celular, da sua personagem e do seu humor negro descarado. Embora todo o elenco esteja extremamente bem, e conduza com perfeição suas personagens em constante mutação, ele ainda merece um destaque maior juntamente com a Kate Winslet. Eles estão majestosamente deprimentes em suas personagens.
Junto com o roteiro ácido, e em algumas reflexões até indigesto, porém sempre na medida de equilibrar a filosofia do argumento com o humor de não tornar a obra pedante nem cansativa, temos uma fotografia diferente. Na verdade, todo o filme tem o jeito diferente que eu já mencionei. Um tratamento meio teatral, ações bem carregadas de cargas dramáticas, a ação restrita a um único espaço e um único tempo, uma fotografia marcada ora por closes, ora por visões panorâmicas do cenário.
E como chave e argumento principal, a desconstrução da civilização. A ruptura da camada de gelo que criamos para cobrir nossa verdadeira essência ou natureza, que mantemos para sustentar a imagem de mundo civilizado, regido por leis e moral, pelo amor ao próximo e ao bom funcionamento da sociedade. Que encobre o egoísmo de nossas mentes, a hipocrisia de nossos ideais cristãos. Porém, o filme vai além. Mais que destruir a camada de gelo e mostrar que talvez a civilização não seja nada mais que um devaneio do imaginário coletivo, somos direcionados a outro ponto: à realidade do caos.
Ao caos enquanto a realidade da civilização.

Em uma nota?
8.5

domingo, 20 de maio de 2012

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Direção: Michel Gondry
Roteirista: Charlie Kaufman
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson

Do que se trata?
Se trata da história de Joel, que se vê perdido após sua namorada, Clementine, tê-lo deixado. Porém, mais do que a dor de ter sido abandonado, ele precisa lidar com o fato dela ter ido além: recorrido a um estranho tratamento que promete, e consegue, apagar totalmente alguém da sua memória. E, movido pela raiva por ter sido deletado no sentido mais real da palavra, Joel embarca também no tratamento para apagá-la de sua vida.


Como realmente é?
Mais um daqueles filmes que fica difícil comentar sem correr o risco de estragar as surpresas. Ele é muito bem amarrado e muito louco no seu fluxo de ideias; me deixa meio atado quanto o que eu posso falar sobre. Duas palavras além do limite e seria melhor nunca ter escrito essa crítica. Mas ele é, acima de tudo, uma das viagens que você pode ter o maior prazer de vivenciar na sua vida toda. Um daqueles filmes que têm o poder mágico de te acertar na espinha dorsal da existência.

O que eu achei?
Acho que ficou um pouco claro pelo tópico acima. Eu achei ele algo indescrítivel, mas no sentido bom da palavra. No melhor dos sentidos possíveis. A história é bem sem pé nem cabeça, bem inexplicável, até porque muita coisa ocorre dentro da mente do Joel e não no mundo material, mas nos esquecemos que é uma mente, porque é tudo real. Tão real quanto eu aqui escrevendo e alguém aí lendo, embora tanto uma coisa quanto a outra só exista na nossa mente.
E desse jeito, dançando num muito bem elaborado paralelo realidade-fantasia, o roteiro se torna excelente. Ele nos puxa de um lado ao outro sem avisos prévios; nos impulsiona através de efeitos especiais bem controlados para viajar sem sentir o tempo através das memórias e para voltar à realidade. E, tudo que parece não ter o menor sentido, começa a fazer aos poucos; acho que, no fundo, a chave do filme está nos detalhes que passam meio desapercebidos.
É um roteiro muito bem amarrado em seus detalhes e momentos, pois nada se torna desnecessário à trama. Tudo é essencial para que ela tenha sentido. Porém, mesmo o sentido podemos acabar abrindo mão durante o filme; podemos nos dar o luxo de esquecer que há uma lógica na vida e simplesmente torcer pelo Joel e pela Clementine, pois é exatamente isso que acabamos fazendo. Não há como fugir de simpatizar com eles; ele, o cara de poucas palavras, com dor no olhar, ela a menina que tenta passar segurança e vida, mas que sentimos estar perdida. Eles o casal que podia ter dado certo, eles os dois que estão se esquecendo um do outro.
Para dar corpo a um roteiro fantástico, tudo parece dar certo. As duas atuações fenomenais dos principais. Como é bom ver o Jim Carrey sem sua marca de comédia pastelão norte-americana, sem suas caras e bocas habituais. Nem parece o mesmo Jim Carrey; acho que é um daqueles papéis que exige a real força do ator. Assim como a Kate Winslet, premiada com o Oscar de melhor atriz com razão. Ao mesmo tempo que ela nos passa a força interna que há dentro da Clementine, nos deixa vislumbrar o vazio interno. E, para completar, o filme tem uma das fotografias mais especiais que eu já vi, cheia de cortes e ângulos diferentes, uma iluminação atípica, uma sensibilidade além do normal para as comédias românticas. A mesma sensibilidade que faz esse filme especial, que nos faz perdoar seus clichês de comédia romântica e simplesmente nos move a querer embarcar dentro do mundo deles dois, que aos poucos vai se destruindo.
Esse é o todo que é capaz de atravessar uma faca pela sua alma e despedaçar várias coisas. Não é apenas um filme sobre apagar as memórias, sobre esquecer alguém; é sobre esquecer o que deveria ser importante, sobre o que é importante. Os pequenos detalhes, as pequenas memórias felizes, tudo o que deve-se lembrar e se deixa perder dentro do emaranhado gigante de lembranças que incorporamos todos os dias.
As memórias felizes que são incendiadas pelas tristes.

Em uma nota?
10,0 - a sensibilidade vai além dos clichês. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Keane, Paul Simon.

Do que se trata?
O filme é a história do conturbado relacionamento entre Alvy Singer, um neurótico comediante nova iorquino totalmente apaixonado por sua cidade, que faz terapia há 15 anos sem grandes resultados, e a jovem Annie Hall, uma mistura de cantora e atriz vinda do interior norte-americano e um tanto perdida dentro do caos da cidade grande. E, entre términos e reatadas, brigas e momentos de paixão, imersos em suas dúvidas individuais, eles seguem, ou quase, a relação.



Como realmente é?
É uma grande viagem no quesito relacionamento. Em nenhum tipo de sinopse seria possível ter um breve vislumbre do filme, além do mais óbvio, sem que se estrague o efeito surpresa. "Mas, além de você ter falhado na sinopse, como ele realmente é?". Ah, ele? Ele é a perfeita fotografia panorâmica detalhada de como pode ser uma relação a dois.

O que eu achei?
Eu achei bom pra cacete. Não tem muito como fugir de elogiar o filme; ele já começa te cativando desde o início, ao mesmo passo que te assusta, com o Woody Allen, sempre com seus trejeitos de neurótico, em seu monólogo de relacionamento. Não sabemos se sentimos pena do Alvy ou se rimos da maneira como ele expõem tudo.
O roteiro é simplesmente fenomenal. É fato que algumas piadas acabam sendo um tanto seletivas, ou satirizando o método de vida norte-americano em geral, ou dançando com figuras intelectuais e obras literárias. Porém, no campo da narrativa, o roteiro caminha muito bem com suas loucuras. Temos a sensação que não existe uma certa linearidade do tempo; o Tempo dança de um lado para o outro sem que percebamos de verdade. Não observamos claramente o início, o meio e o fim, várias vezes, de um relacionamento; temos diversas fases, tanto boas como ruins, do mesmo relacionamento se apresentando sem um verdadeiro meio. Somos encaminhados da paixão à crise sem pausa para sentir a tempestade. Mas, o que poderia desconstruir a história e deixá-la cheia de vazios, apenas torna-a mais interessante e evita que ela caia na perdição de ser a história de um amor que nasce, cresce e morre. Nós vivemos a história do Alvy e da Annie, às vezes só o Alvy e suas crises, às vezes só a Annie e suas dúvidas, e às vezes os dois se apaixonando e se perdendo.
E, para dar conta do roteiro totalmente atípico de história de amor, há o ator-diretor-roteirista Woody Allen e a Diane Keaton em estado de graça. Há uma naturalidade, uma afinidade incrível entre eles. Você realmente acredita que a Diane é uma perdida mulher, com sorriso de criança, abarrotada de dúvidas e desencaminhada, que não sabe se canta, se atua. Você também acredita fielmente que o Woody é aquele sujeito meio esquisito, que só sabe falar rápido e gaguejando um pouco, que só sabe ver no mundo tristeza e miséria, entupido de neuroses e insegurança. E o mais fascinante: eles te levam a acreditar que o romance deles realmente pode dar certo, mesmo que tudo diga que jamais daria.
No fundo, não é o romance que importa, mas sim a sensação de ver ambos crescendo. A história de amor, o namoro-casamento deles, está sempre em primeiro plano, seja ele real ou apenas uma construção do passado, porém o mais importante e delicioso do filme é sentir a mudança que há no Alvy e a na Annie. Essa é a verdadeira beleza do efeito temporal e do filme: poder tocá-los como entes separados, e vê-los como entes unidos.

Em uma nota?
10.0

domingo, 25 de março de 2012

Medianeras

Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Direção: Gustavo Taretto
Roteirista: Gustavo Taretto
Elenco: Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Inés Efron e Carla Peterson

Do que se trata?
O filme narra o que seria a possível história de amor entre Martin, um jovem solitário, hipocondríaco, abarrotado de neuroses, e Mariana, uma jovem igualmente solitária, que está reaprendendo a ver a vida sozinha. Os dois, perfeitos um para o outro, moram na mesma rua de uma calorosa e efervescente Buenos Aires, em prédios um de frente para o outro, separados apenas por um estabelecimento, mas que mesmo assim se cruzam sem se olhar, se aproximam sem nunca se encontrar.



Como realmente é?
Muito diferente de tudo o que se pode imaginar. Acho que não há sinopse, ou tentativa de, que consiga passar a idéia do filme, ainda mais sem fazer ele parecer uma simplória e até descartável obra sobre amor não-concretizado. Mas, mesmo que até a minha possa passar essa imagem, ele não é nada disso, e sim uma das mais bem-feitas obras sobre a solidão de se viver cercado de pessoas que eu já tive o prazer de ver.

O que eu achei?
Eu achei ele fenomenal. Fico meio sem palavras diante dele, porque as sensações são difíceis de descrever, e ele se mostra como um filme muito mais visual que auditivo; o roteiro é majoritariamente muito simples, menos nos primeiros minutos do filme. Parece que o diretor e roteirista gastou, sabiamente, toda a sua cota de palavras e filosofia nos dois monólogos de apresentação das personagens. Mas, o que poderia ser algo chato e cansativo, pois nem sempre monólogos são fáceis de se aguentar, foi feito com tanta sensibulidade e simplicidade, mesclados com humor negro, que só te faz admirar logo de cara o filme.
Já como a maioria da cota de palavreado foi gasta com os primeiros minutos do filme, o restante caminha com diálogos simples, mas nem por isso menos delicados. As próprias personagens, encantadoras e cativantes a seu jeito, cheias das neuroses criadas pela vida de estar sempre conectado a todos, entretanto distante de tudo, criam a exigência de um roteiro com falas simples e essenciais. O Martin e a Mariana são as típicas pessoas que, de tanto viverem dentro de si, se esqueceram de como se relacionar com o resto do mundo; ele trancafiado dentro de seu computador, ela acorrentada à sua solidão. E, para fazer justiça a personagens que exigem tanta simplicidade mas que são tão complexas, as atuação foram excelentes. Os olhares, os sorrisos, os trejeitos, tudo soa natural e encantador na pele dos atores; parece que eles são exatamente como os seres que retratam: vítimas da vida nas grandes cidades.
Enquanto isso, para dar o corpo final a toda a sensibilidade do roteiro e das atuações, há uma fotografia espetacular, que transporta como terceiro protagonista a arquitetura de Buenos Aires. Os prédios, as janelas, as varandas, os espaços depredados, as plantas que lutam contra o concreto da cidade, tudo isso se unifica num corpo fundamental para o filme, explorado no início, e vivo em quase todo o tempo. Uma fotografia detalhista, singela, com o afastamento necessário para não dar a impressão de interferir no ambiente; uma fotografia perfeita.
E, além de romper com os clichês do próprio tema abordado, a obra consegue ir mais além: ela rompe com os clichês envolta da sociedade moderna. Não se deixa levar pelo recente clichê de atacar a qualquer custo o mundo das redes, o abismo artificial que nos cerca, mas critica subjetivamente esse novo modelo de vida. No fundo, não é a internet nem a virtualidade das relações e coisas que separam eles dois, e tampouco o "abismo" entre seus dois prédios quase vizinhos, mas sim o ver e não enxergar. Não é a internet em si, porém é a aura que as metrópoles parecem sugar para si: a indiferença é o que os separa. A indiferença que é a grande vilã do filme.
E talvez a indiferença que seja a grande vilã de nossas vidas; o constante estar junto e sozinho. A solidão que é se estar cercado de pessoas.

Em uma nota?
10.0

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Mulher de Preto

A Mulher de Preto
Direção: James Watkins
Roteirista: Jane Goldman
Elenco: Daniel Radcliffe, Janet McTeer, Ciarán Hinds, David Burke, Shaun Dooley, Alisa Khazanova, Sidney Johnston, Mary Stockley, Alexia Osborne

Do que se trata?
O filme conta a história de Arthur, um jovem advogado londriano que mora apenas com seu filho e a babá, carregando nas costas a dor pela perda de sua mulher durante o parto, e que, sendo ameaçado de perder o emprego na firma na qual trabalha, precisa ir realizar um serviço num vilarejo no interior da Inglaterra. Porém, o que era apenas um serviço comum de resolução de papeladas de herença, se transforma numa imersão em segredos, traumas e misteriosas mortes de crianças ao longo da história do vilarejo.





Como realmente é?
Mais um típico filme de terror, contando com todos os elementos padrões desse tipo de cinema: o personagem traumatizado, o vilarejo longínquo e imerso numa gélida neblina, o espírito que insiste em continuar se agarrando ao nosso plano existencial, a névoa sombria, o casarão abandonado. Mas, apesar de ser mais um típico filme de terror, ele ainda é capaz de provocar sustos e medo, mesmo que seja apenas por um período de tempo.

O que eu achei?
Um filme que tinha potencial, mas que se perdeu. Mesmo com a história se solidificando em cima de uma das temáticas dogmas do cinema de terror e se apoiando no uso de crianças com olheiras negras e olhares perdidos, o enredo conserva algumas gotas de originalidade. Porém, essas gotas se esvaem conforme a trama segue seu rumo e seus clichês, se não se empilham, se fundem, construindo a total perda de ritmo que ocorre na metade do filme. Se durante a primeira metade do filme ele transborda sustos e cenas bem elaboradas, depois dela ele consegue caminhar em completa perdição, e todo o terror se transforma na comédia que são as obras de terror mal feitas.
Enquanto isso, a atuação do Daniel Radcliffe (eterno Harry Potter, para a geração que acompanhou a saga) consegue até ser boa, mesmo com ele na pele de uma personagem um tanto fraca. O Arthur se mostra um cara traumatizado pela perda da mulher durante o parto de seu único filho, entretanto esse trauma não é explorado a fundo ou tão pouco utilizado para engajar a trama, sendo útil apenas no final da obra de maneira quase forçosa para encerrá-la.
Porém, para tentar salvar o filme, ele conta com uma fotografia extremamente bem feita, ao menos na primeira metade do filme. Com cortes precisos e mudanças de angulação e posicionamento das câmeras, a fotografia intensifica toda a tensão das cenas, sendo capaz de quase multiplicá-la, sempre atenuando os detalhes e provocando um constante medo e sobressalto. Uma fotografia detalhada e sensível, digna de roteiros melhores.
Na totalidade, infelizmente, é um filme que deixou bastante a desejar. A quebra de ritmo muda totalmente a sensação que ele é capaz de provocar em você; de intrigante e assustador, ele se transforma em algo previsível e digno de risadas. Não são necessários mais que vinte minutos após essa quebra para que se junte todos os pedaços e o enredo fique armado na sua mente. E ele não apresenta a capacidade de matar as suas expectativas: um típico refém dos "dogmas" do terror comercial.
Parece que o Daniel escolheu o filme errado para se projetar fora de sua eterna sombra. Parece que o roteirista teve as idéias erradas. Parece que o diretor se fechou no medo de ousar, na covardia de tentar. E parece que o filme foi uma decepção, mais uma decepção.

Em uma nota?
7.0

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Artista

O Artista
Direção: Michel Hazanavicius
Roteirista: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch.

Do que se trata?
O filme fala a história de George Valentin, um popular galã do cinema mudo dos anos 30 que vive o ápice de sua carreira. Porém, com a revolução do cinema falado, e a constante necessidade de renovação das estrelas do cinema, sua vida, bem como o estilo de cinema que ama, entram em plena decadência, enquanto uma jovem, Peppy Miller, impulsionada por ele no mundo do cinema, ruma ao estrelato do cinema falado.


Como realmente é?
Um dos filmes mais diferentes que eu já tive o (enorme) prazer de ver. A estética do cinema mudo dos anos 30, a ausência de diálogos, a filmagem em preto e branco, e a aura das personagens nos convidam a uma viagem pelos primódios do cinema. E, enquanto somos levados a mergulhar na história do cinema e ver sua evolução, somos impulsionados em paralelo reverso, ao ver a destruição gradual do galã George e sua luta perdida contra a invasão dos sons humanos no mundo do cinema.

O que eu achei?
Uma maravilhosa homenagem à história do cinema. O filme acerta em todos os detalhes, desde a estética em preto e branco até os sons orquestrais se fundindo e impulsionando o ritmo do filme. Parece que na época que os diálogos tinham de ser curtos e simples, as músicas carregavam a complexidade das emoções em suas sinfonias, e nos faziam viajar imersos nelas.
Chega a ser até estranho pensar na idéia de roteiro, quando o filme caminha sem falas ou legendas, dando espaço, apenas, para que hora ou outra surja um "quebra-cena" com as palavras que as bocas mudas das personagens disseram. Porém, mesmo com essa estranha a ausência de falas, o roteiro consegue ser maravilhoso, e todos os seus clichês de história só servem para recriar a simplicidade e beleza do cinema da época, com histórias que hoje seriam consideradas praticamente banais. Clichês justificado e necessários pela missão a ser cumprida, e roteiro maravilhoso em todos os pontos.
Enquanto isso, uma dupla de atores maravilhosa governa o filme, passando todas as mensagens, que hoje em dia poderiam ser ditas através de verbetes, usando apenas gestos, olhares e expressões faciais. O que pode ser uma missão dificílima para muitos atores, o Jean e a Bérénice tratam com a naturalidade de quem viveu a época e apenas reencarnou para realizar mais um filme. Basta apenas encarar o George para sentir sua aura, e apenas dar um vislumbre de olhar dentro da Peppy para se maravilhar com a leveza da personagem.
E, com essa união de ingredientes simples e refinados, o diretor e roteirista Michel conseguiu produzir uma belíssima obra de arte, que, mais do que nos mostrar a revolução que pode ter sido abandonar o mundo dos roteiros mudos para os falados, nos remete a efemeridade do sucesso. O que um dia era ídolo de desejo, no outro era fantasma de cadáver sem nome, enquanto o que era desconhecido ontem, torna-se centro do sistema solar no amanhã, sempre com os dois ciclos se movimentando e alimentando.
"Que saía o velho e entre o novo!", como a Peppy diria, e disse.

Em uma nota?
10.0 - obra-prima é obra-prima, seja muda ou falada. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Tudo Pelo Poder

Tudo Pelo Poder
Direção: George Clooney
Roteirista: Grant Heslov
Elenco: George Clooney, Ryan Gosling, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Jeffrey Wright

Do que se trata?
Se trata de um jovem especialista em comunicação, Stephen, que trabalha na campanha presidencial do governador Morris. Movido pela concepção de que Morris é o homem que contém todos os atributos certos e necessários para guiar um país, ele dá o melhor de si para contribuir com a campanha e levá-lo ao poder. Porém, sem perceber, ele se torna vítima da sujeira do mundo político, ao mesmo tempo que sua credibilidade em Morris e a campanha estão em risco.





Como realmente é?
Daquele tipo de filme difícil de falar sem correr o risco de contar algo bastante relevante e estragar a experiência de quem ainda não viu. Sendo uma arrebatadora imagem do mundo política e suas entranhas sórdidas, ele roda em torno de Stephen, um jovem idealista e acreditado naquilo que exerce. Porém, sua capacidade acima da média lhe confere um alteração de ego, ponto de partida para que ele entre numa rede de jogos políticos e manipulação. Mas, como se não fosse o suficiente para abalar seu idealismo, ele ainda acaba por guardar nas mãos a mancha do currículo de Morris, o homem ideal para assumir o país.

O que eu achei?
Frenético, por mais estranha e um tanto hilária que a palavra possa parecer. O roteiro trabalha praticamente com duas metades, divididas exatamente pelo meio do filme, a partir do qual a obra adquire um ritmo mais forte e ágil, quase desnorteante. Entretanto, nem por isso a primeira metade é fraca ou lenta em demasia; também mantém um excelente ritmo, mas ditado pela aparente necessidade de se apresentar todos os personagens e pequenos fatos. E, assim, ele segue bem estruturado e amarrado, com tons de humor negro e cinismo, e com a preocupação constante de nos explicar o porquê de certas revelações. Mas, apesar de tudo, ele peca ao cair em pequenos clichês típicos de filmes com a temática política, e talvez por cometer o erro de explicar tanta informação que o espectador acaba perdendo a capacidade de elaborar suas próprias teorias.
Enquanto isso, as atuações dão um excelente corpo ao roteiro mediano para bom. Em especial o Ryan, que parece fluir com o olhar a admiração e a fé que deposita tanto no seu chefe quanto no mundo que o cerca. E, com maestria ainda maior, ele transmite a mudança que a personagem sofre com o decorrer do filme, como a pose se altera, os olhos se modificam, e a fala se torna seca e ácida. Mas, para completar a obra, ela ainda conta com uma fantástica fotografia, marcada por pequenos closes, posicionamento distante em cenas de tensão, planos quase estáticos em debates, e momentos de presença artística belíssima.
E, se a idéia do filme era demonstrar o quão sórdido e deplorável pode ser o mundo da política, ele passa ela com perfeição, ainda explorando como esse mesmo ambiente é capaz de corroer e corromper os ideais mais puros. O Stephen que temos no início, idealista e esperançoso, encerra o filme como um homem cínico e amargo, mas a transição é tão bem elaborada que não a percebemos de imediato. Se o que menos importava no início de tudo era o poder pelo poder, e os meios importavam tanto quanto os fins, no final temos talvez a triste realidade que pode pairar não apenas sob o mundo da política: o fim importa mais que o meio para se chegar até ele.
E o fim quase sempre é o poder.

Em uma nota?
9.0

Uma curiosidade legal?
Esse é o primeiro trabalho do George Clooney como diretor, e me deixou muito surpreso. É uma baita obra para um primeiro trabalho realizado por um ex-galã de Hollywood, que após largar o vulgo "cinema esquemão norte-americano" e embarcar em aventuras mais independentes, decide se arriscar na direção, cumprindo um excelente papel.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

The Future

The Future
Direção: Miranda July
Roteirista: Miranda July
Elenco: Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky

Do que se trata?
Se trata de um casal, Sophie e Jason, que estão juntos a quatro anos e decidiram adotar um gato para se unir a eles, contudo a chegada do mascote felino demorará ainda trinta dias. E, pensando sobre isto, eles percebem que esses trinta dias podem ser os últimos da vida como eles conhecem, e que está na hora de começar a reavaliar prioridades e dar um sentido a existência. Entretanto, os dois parecem rumar para caminhos diferentes, e o que poderia uní-los ou salvá-los começa a devastá-los.






Como realmente é?
Absurdamente diferente de tudo que eu já vi. O filme começa como se fosse algo simples: dois jovens que percebem que não são mais tão jovens assim, que o futuro está ali próximo deles e eles não estáo preparados o suficiente. E que decidem dar uma reviravolta na vida para driblar o Tempo. Porém, o que podia ser simples e sem graça, acaba ganhando uma aura fantasiosa de quase ficção científica, com o Tempo perdendo sua essência linear. Enquanto isto, os protagonistas se vêem de frente não apenas com o efeito de um futuro que teima em abordá-los, mas também com a capacidade de esquecer e superar.


O que eu achei?
Brilhantemente louco. A história tinha tudo para cair na banalidade de ser mais um filme sobre crises existências à cerca de futuro, expectativas, sonhos e tempo, mas ele foge de qualquer tipo de crise declarada e trabalha num belo subjetivismo. Acho que as personagens contribuem muito para isso: elas são de poucas palavras, dois jovens na era do mundo virtual, que se sentam no mesmo sofá trancafiados em seus respectivos computadores, desperdiçando a juventude que lhes foi dada e deixando a paixão se apagar, enquanto seus sonhos e expectativas se perdem. Com eles dois, o roteiro utiliza poucas palavras, sem diálogos arrastados, mas nem por isso simples a nível filosófico; tem momentos em que não há nada de direto nas palavras, e sim idéias abstratas. E volta e meia ele assume um caráter lírico e poético na voz quase narradora do gato ao esperar seus futuros donos. Enquanto isso, para não enfraquecer a beleza criada pelo roteiro simples, há as duas atuações fantásticas dos protagonistas, que passam, no gaguejar das vozes, no jogo de olhares silenciosos, no abanar de cabeças que não compreendem, todo o sentimento de perdição que acompanha suas personagens. Há nos olhares agonia, dor, felicidade, arrependimento, tudo aquilo que o roteiro abre mão de explicar em palavras.
A fotografia passa a maior parte do tempo como um grande auxílio para reforçar as atuações grandiosas, ora se mantendo distante da cena, ora tão perto dos atores que os olhares parecem nos encarar. Contudo, em especial para o final, ela assume tons majestosos e artísticos, se mantendo estática e impessoal. Porém, o que devia nos afastar, acaba que, estranhamente, nos ajuda a criar uma intimidade com a cena. E, se o roteiro a partir de um certo momento começa a assumir características de ficção científica e praticamente descontruindo toda a linha temporal do filme, a fotografia dá um excelente apoio para essas cenas, em perfeito sincronismo com o ritmo, que é sempre calmo e um tanto lento, mas não melancólico.
Muito mais do que talvez um filme sobre simplesmente o Tempo como ele devora a existência de uma maneira única, é uma obra sobre, como o nome diz, o futuro. E sobre o que estamos dispostos a fazer com ele, e sobre até onde estamos dispostos a ter esperança nele. Se a adoção do mascote é o grande pivô para todos os questionamentos, é na resolução da adoção que mora uma das grande mensagens do filme: nem sempre a vida espera. E nem sempre esperar é o suficiente para expulsar as mágoas.

Em uma nota?
9.5

Uma notícia chata junto com uma boa:
O filme nunca foi realmente lançado no Brasil, apesar de ser fantástico. Ficou retiro a pequenas aparições em mostras e festivais de cinema, mas nunca chegou aos circuitos nacionais. Uma pena. Porém, ainda é possível encontrá-lo, e legendado, pelos sites de download internet a fora.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Rosa Púrpura do Cairo

A Rosa Púrpura do Cairo
Direção: Woody Allen
Roteirista: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello

Do que se trata?
O filme fala sobre a história de como a vida de uma jovem garçonete chamada Cecília mudou completamente em dois dias. Dona de uma vida infeliz, com um marido grosseirão, constantemente bêbado e desempregado, ela tem como única válvula de escape para toda a infelicidade a sua paixão: o cinema. Entretanto, após ver tantas vezes no cinema o filme "A Rosa Púrpura do Cairo", algo inusitado acontece: o herói salta da tela e do mundo fictício para o real, e lhe propõem que o ensine como é o mundo real e que fuja com ele. Porém, devidos aos efeitos da fuga, o ator que deu vida ao herói vê sua carreira ameaçada, e parte em busca de sua criação para evitar uma catástrofe no mundo do cinema e se apaixona também por Cecília.


Como realmente é?
Uma viagem total do Woody Allen. Todo ambientado no cenário dramático e caótico da Grande Depressão norte-americana, o filme se constrói em cima da desesperança da vida real, tomada por insegurança, desemprego e miséria. Atormentada pela necessidade de sustentar sua casa, Cecília tenta sobreviver no trabalho de garçonete, porém seus pensamentos parecem sempre estar em outro lugar, no mundo da ficção bela e estável dos filmes que assiste no cinema, sendo até já conhecida no mesmo. Contudo, após sua demissão, ela se entrega a uma sala de cinema com o mesmo filme sendo exibido sem parar, até que o herói e galã se apaixona por ela e sua admiração pela obra e foge da tela.

O que eu achei?
Fabuloso. Fabuloso e encantador. Está na disputa com o "Manhattan" para ser o melhor filme do Woody Allen que eu já vi, mesmo sendo um estilo bem diferente. A história é uma loucura que eu nunca tinha visto antes: uma pergonagem de um filme ser capaz de sair da tela e criar existência no mundo real, mas mantendo suas características fictícias. Porém, é uma loucura extremamente bem feita e elaborada, que mantém um elo muito forte com a realidade. O elenco todo está muito bem, e a Mia Farrow melhor do que nunca, mas quem já viu muitos filmes do Woody Allen com ele atuando sempre vai sentir falta dele.
Enquanto isso, cômico, sutil, mirabolante, perfeito, o roteiro se constrói na dualidade ficção-realidade, mostrando como a vida de Cecília ora é estupenda, ora é sem graça, tudo dependendo da presença do herói fugido. Parece que para se ir do céu dos sonhos cinematográficos ao inferno da tristeza norte-americana basta apenas a presença ou ausência do herói. Entretanto, mais do que apenas mostrar essa dualidade, o roteiro materializa o efeito da arte como uma rota de fuga do mundo real. Dá para perceber nitidamente que existem duas Cecilias na obra: a espectadora do cinema e a garçonete trabalhora. É uma perfeita fábula de como a arte, e em especial o cinema, que se firma como uma quase personificação da vida humana, são capazes de alterar os rumos das pessoas, a partir do momento em que são mais do que escapatórias: são uma fonte, talvez inesgotável, de esperança para a própria vida.
Os filmes são muito mais que diversão para a Cecília; são, inconscientemente, uma maneira de valorizar o viver. São os sonhos que muitas vezes morrem dentro de nós, levados pela frieza de um mundo indiferente à dor. São as vidas que gostaríamos de viver, e nunca vivemos.

Em uma nota?
10.0