Irreversível
Direção: Gaspar Noé
Roteirista: Gaspar Noé
Elenco: Monica Belluci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Philippe Nahon, Jo Prestia, Stéphane Drouot, Mourad Khima.
Do que se trata?
Caramba, este aqui é bem difícil. Mas vamos lá. O filme fala sobre a história de um casal, Alex e Marcus, que vivem uma vida feliz, até que, em uma festa, eles se desentendem e a Alex volta sozinha para casa, deixando o ex-namorado dela e amigo, Pierre, tomando conta do Marcus. Porém, durante essa volta, ela passa por um túnel, e é brutalmente estuprada por um homem conhecido como Solitária. Daí para frente, é a história dos dois homens apaixonados por ela em busca do estuprador para vingá-la como for possível, e nessa busca desenfreada, se metem pelo sub-mundo homossexual parisiense.
Como realmente é?
Bem além dessa sinopse. A estética é totalmente atípica; a história é contada do fim para o início, o que destrói em você qualquer possibilidade de se perguntar como as coisas vão terminar. Acho que é um tanto o contrário: você se pergunta como começou. Ou talvez nem isso, porque você já sabe que tudo começou com o estupro, então não há nada para se esperar (ou ao menos é nisto que você acredita), e o que te resta é silenciar, sentar e esperar serenamente pela cena chave de tudo, deixando crescer em você, a cada instante o seu ódio e nojo pelo estuprador. Entretanto, o filme não para aí.
O que eu achei?
Acho que provavelmente este vai ser um dos filmes mais difíceis para fazer uma crítica que eu vou ter na vida. Pra mim, ele é uma obra-prima. As atuações estão excelentes, a Monica Belluci como sempre linda, o Vincente Cassal muito bem no papel de Marcus, o namorado entupido de raiva e ódio, e o Albert Dupontel está perfeito como o ex-namorado erudito, controlado e um tanto derrotado, mas que, mesmo assim, parte junto com o Marcus na jornada por justiça com as próprias mãos.
A direção de arte e fotografia estão sensacionais, usando de uma câmera um tanto quanto alucinógena que viaja pelos cenários e nunca corta qualquer cena. Parece uma primeira pessoa que pertence e não-pertence ao ambiente, estando e não estando ali. Faz você se sentir um fantasma em meio ao todo, alguém que presencia cada coisa, porém que não tem corpo material para atuar. É agonizante.
A obra te passa as mais diversas sensações; te faz sentir nojo dos cenários deploráveis, pavor diante de um submundo homossexual de Paris que você não consegue conceber a idéia de existência, um atordoamento perante tanta violência. Contudo, se você está acreditando que o filme se retem a fortes, mas não necessariamente profundas, sensações, engana-se. Ele constrói dentro de você, aos poucos, em especial a partir do meio, a mais profunda tristeza possível.
O futuro você já tem idéia desde o começo, porém o passado ainda é uma variável sem conhecimento. E é nesta falta de conhecimento que o filme se prende e amarra depois da metade, retrocedendo até o que ocorreu antes do fatídico estupro. Eu me dou ao luxo de não comentar a cena do estupro, dizendo apenas que ela é uma das poucas cenas que me fez sentir pertubado e que, se eu tivesse visto num cinema, me teria feito cogitar a idéia de ir embora da sala. Se durante todo o filme você se sente um fantasma, uma presença imaterial dentro dos ambientes, mas que não faz questão de atuar para intervir, na cena do estupro você é exatamente o mesmo de uma forma amplificada e com a necessidade de atuar para impedir o que está diante dos seus olho. "Alguém precisa fazer algo para impedir este maluco. Mas não há ninguém! Eu preciso fazer algo", é um pouco do que se passa na sua mente, entretanto, você é um fantasma com a sensação de estar preso ao chão, bem como a câmera. Não há nada para se fazer além de sentar e sofrer com o espetáculo.
Daí para frente, ou melhor, para trás, o diretor alimenta em você um dueto entre uma felicidade e uma tristeza que te deprime. Acho que fazia tempos que um filme não me deixava tão deprimido, triste e meramente feliz ao mesmo tempo. A beleza do que vem depois da metade te passa uma felicidade, mas o saber do futuro cria a metamorfose da felicidade em abundante tristeza. É um efeito marcante e destrutivo desse filme.
E, para finalizar, o filme fecha com uma frase que pode ser a síntese de tudo, e talvez de toda a humanidade, de todas as coisas do universo: o tempo arruina tudo. E o que tempo arruina, é irreversível.
Em uma nota?
10.0 - é uma obra-prima.
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