domingo, 25 de março de 2012

Medianeras

Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Direção: Gustavo Taretto
Roteirista: Gustavo Taretto
Elenco: Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Inés Efron e Carla Peterson

Do que se trata?
O filme narra o que seria a possível história de amor entre Martin, um jovem solitário, hipocondríaco, abarrotado de neuroses, e Mariana, uma jovem igualmente solitária, que está reaprendendo a ver a vida sozinha. Os dois, perfeitos um para o outro, moram na mesma rua de uma calorosa e efervescente Buenos Aires, em prédios um de frente para o outro, separados apenas por um estabelecimento, mas que mesmo assim se cruzam sem se olhar, se aproximam sem nunca se encontrar.



Como realmente é?
Muito diferente de tudo o que se pode imaginar. Acho que não há sinopse, ou tentativa de, que consiga passar a idéia do filme, ainda mais sem fazer ele parecer uma simplória e até descartável obra sobre amor não-concretizado. Mas, mesmo que até a minha possa passar essa imagem, ele não é nada disso, e sim uma das mais bem-feitas obras sobre a solidão de se viver cercado de pessoas que eu já tive o prazer de ver.

O que eu achei?
Eu achei ele fenomenal. Fico meio sem palavras diante dele, porque as sensações são difíceis de descrever, e ele se mostra como um filme muito mais visual que auditivo; o roteiro é majoritariamente muito simples, menos nos primeiros minutos do filme. Parece que o diretor e roteirista gastou, sabiamente, toda a sua cota de palavras e filosofia nos dois monólogos de apresentação das personagens. Mas, o que poderia ser algo chato e cansativo, pois nem sempre monólogos são fáceis de se aguentar, foi feito com tanta sensibulidade e simplicidade, mesclados com humor negro, que só te faz admirar logo de cara o filme.
Já como a maioria da cota de palavreado foi gasta com os primeiros minutos do filme, o restante caminha com diálogos simples, mas nem por isso menos delicados. As próprias personagens, encantadoras e cativantes a seu jeito, cheias das neuroses criadas pela vida de estar sempre conectado a todos, entretanto distante de tudo, criam a exigência de um roteiro com falas simples e essenciais. O Martin e a Mariana são as típicas pessoas que, de tanto viverem dentro de si, se esqueceram de como se relacionar com o resto do mundo; ele trancafiado dentro de seu computador, ela acorrentada à sua solidão. E, para fazer justiça a personagens que exigem tanta simplicidade mas que são tão complexas, as atuação foram excelentes. Os olhares, os sorrisos, os trejeitos, tudo soa natural e encantador na pele dos atores; parece que eles são exatamente como os seres que retratam: vítimas da vida nas grandes cidades.
Enquanto isso, para dar o corpo final a toda a sensibilidade do roteiro e das atuações, há uma fotografia espetacular, que transporta como terceiro protagonista a arquitetura de Buenos Aires. Os prédios, as janelas, as varandas, os espaços depredados, as plantas que lutam contra o concreto da cidade, tudo isso se unifica num corpo fundamental para o filme, explorado no início, e vivo em quase todo o tempo. Uma fotografia detalhista, singela, com o afastamento necessário para não dar a impressão de interferir no ambiente; uma fotografia perfeita.
E, além de romper com os clichês do próprio tema abordado, a obra consegue ir mais além: ela rompe com os clichês envolta da sociedade moderna. Não se deixa levar pelo recente clichê de atacar a qualquer custo o mundo das redes, o abismo artificial que nos cerca, mas critica subjetivamente esse novo modelo de vida. No fundo, não é a internet nem a virtualidade das relações e coisas que separam eles dois, e tampouco o "abismo" entre seus dois prédios quase vizinhos, mas sim o ver e não enxergar. Não é a internet em si, porém é a aura que as metrópoles parecem sugar para si: a indiferença é o que os separa. A indiferença que é a grande vilã do filme.
E talvez a indiferença que seja a grande vilã de nossas vidas; o constante estar junto e sozinho. A solidão que é se estar cercado de pessoas.

Em uma nota?
10.0

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