domingo, 20 de maio de 2012

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Direção: Michel Gondry
Roteirista: Charlie Kaufman
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson

Do que se trata?
Se trata da história de Joel, que se vê perdido após sua namorada, Clementine, tê-lo deixado. Porém, mais do que a dor de ter sido abandonado, ele precisa lidar com o fato dela ter ido além: recorrido a um estranho tratamento que promete, e consegue, apagar totalmente alguém da sua memória. E, movido pela raiva por ter sido deletado no sentido mais real da palavra, Joel embarca também no tratamento para apagá-la de sua vida.


Como realmente é?
Mais um daqueles filmes que fica difícil comentar sem correr o risco de estragar as surpresas. Ele é muito bem amarrado e muito louco no seu fluxo de ideias; me deixa meio atado quanto o que eu posso falar sobre. Duas palavras além do limite e seria melhor nunca ter escrito essa crítica. Mas ele é, acima de tudo, uma das viagens que você pode ter o maior prazer de vivenciar na sua vida toda. Um daqueles filmes que têm o poder mágico de te acertar na espinha dorsal da existência.

O que eu achei?
Acho que ficou um pouco claro pelo tópico acima. Eu achei ele algo indescrítivel, mas no sentido bom da palavra. No melhor dos sentidos possíveis. A história é bem sem pé nem cabeça, bem inexplicável, até porque muita coisa ocorre dentro da mente do Joel e não no mundo material, mas nos esquecemos que é uma mente, porque é tudo real. Tão real quanto eu aqui escrevendo e alguém aí lendo, embora tanto uma coisa quanto a outra só exista na nossa mente.
E desse jeito, dançando num muito bem elaborado paralelo realidade-fantasia, o roteiro se torna excelente. Ele nos puxa de um lado ao outro sem avisos prévios; nos impulsiona através de efeitos especiais bem controlados para viajar sem sentir o tempo através das memórias e para voltar à realidade. E, tudo que parece não ter o menor sentido, começa a fazer aos poucos; acho que, no fundo, a chave do filme está nos detalhes que passam meio desapercebidos.
É um roteiro muito bem amarrado em seus detalhes e momentos, pois nada se torna desnecessário à trama. Tudo é essencial para que ela tenha sentido. Porém, mesmo o sentido podemos acabar abrindo mão durante o filme; podemos nos dar o luxo de esquecer que há uma lógica na vida e simplesmente torcer pelo Joel e pela Clementine, pois é exatamente isso que acabamos fazendo. Não há como fugir de simpatizar com eles; ele, o cara de poucas palavras, com dor no olhar, ela a menina que tenta passar segurança e vida, mas que sentimos estar perdida. Eles o casal que podia ter dado certo, eles os dois que estão se esquecendo um do outro.
Para dar corpo a um roteiro fantástico, tudo parece dar certo. As duas atuações fenomenais dos principais. Como é bom ver o Jim Carrey sem sua marca de comédia pastelão norte-americana, sem suas caras e bocas habituais. Nem parece o mesmo Jim Carrey; acho que é um daqueles papéis que exige a real força do ator. Assim como a Kate Winslet, premiada com o Oscar de melhor atriz com razão. Ao mesmo tempo que ela nos passa a força interna que há dentro da Clementine, nos deixa vislumbrar o vazio interno. E, para completar, o filme tem uma das fotografias mais especiais que eu já vi, cheia de cortes e ângulos diferentes, uma iluminação atípica, uma sensibilidade além do normal para as comédias românticas. A mesma sensibilidade que faz esse filme especial, que nos faz perdoar seus clichês de comédia romântica e simplesmente nos move a querer embarcar dentro do mundo deles dois, que aos poucos vai se destruindo.
Esse é o todo que é capaz de atravessar uma faca pela sua alma e despedaçar várias coisas. Não é apenas um filme sobre apagar as memórias, sobre esquecer alguém; é sobre esquecer o que deveria ser importante, sobre o que é importante. Os pequenos detalhes, as pequenas memórias felizes, tudo o que deve-se lembrar e se deixa perder dentro do emaranhado gigante de lembranças que incorporamos todos os dias.
As memórias felizes que são incendiadas pelas tristes.

Em uma nota?
10,0 - a sensibilidade vai além dos clichês. 

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