Deus da Carnificina
Direção: Roman Polanski
Roteiristas: Yasmina Reza e Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Do que se trata?
Então, o filme é a história de uma tarde num pacato apartamento em New York, onde estão reunidos dos casais visualmente diferentes. De um lado Penelope e Michael, ela uma amante de arte e escritora, preocupada coma África e com a humanidade, ele um simples vendedor de peças e ferramentas hidráulicas, de natureza aparentemente calma e dócil. Do outro lado, Nancy e Alan, ela uma corretora e ele um grande advogado com o celular sempre no bolso do sobretudo. Com a missão de resolverem uma briga entre seus filhos, Nancy e Alan vão até o apartamento de Michael e Penelope para conversarem e acharem uma solução civilizada.
Como realmente é?
É um filme com um jeito bem diferente de ser feito, praticamente todo filmado num ambiente só, num espaço de tempo curto, talvez tudo efeito de ter sido adaptado de uma peça teatral com mesmo nome. E é também um daqueles filmes que são como as águas de um lago, que refletem o mundo acima delas primeiro na calmaria de estarem adormecidas, mas que aos poucos começam a revelar o que realmente as move: o caos. A desarmonia que sempre há em tudo o que não vive em repouso.
O que eu achei?
Eu achei ele bom pra caramba, um excelente retrato do caos da civilização. Não julgo ser nenhuma obra-prima, e o Polanski certamente já realizou obras melhores, porém o filme não deixa de ser muito bom por causa. Mesmo com as dificuldades de se adaptar para o cinema uma história que foi toda criada com as barreiras e limitações do teatro, o filme consegue ser muito bem estruturado.
A combinação das personagens são os ingredientes para a torta do caos. Uma mulher engajada com os direitos humanos, África e o futuro da humanidade, casada com um homem totalmente indiferente à vida, uma corretora que sentimos lutar a cada segundo para preservar sua expressão calma e ativa, sua pose de mulher de negócios que também é uma boa mãe e dona de casa, casada com um mais que cínico advogado, sempre preso ao telefone, o típico homem que jamais teria realmente tempo de estar sentado numa sala para discutir sobre uma briga de crianças. Talvez a única personagem honesta e limpa de máscaras de todo o filme, interpretado numa atuação majestosa do Christoph Waltz (também conhecido como o Coronel Hans Landa do "Bastardos Inglórios"). Não são necessários mais que 15 minutos com ele em cena para que já comecemos a sentir um certo nojo do celular, da sua personagem e do seu humor negro descarado. Embora todo o elenco esteja extremamente bem, e conduza com perfeição suas personagens em constante mutação, ele ainda merece um destaque maior juntamente com a Kate Winslet. Eles estão majestosamente deprimentes em suas personagens.
Junto com o roteiro ácido, e em algumas reflexões até indigesto, porém sempre na medida de equilibrar a filosofia do argumento com o humor de não tornar a obra pedante nem cansativa, temos uma fotografia diferente. Na verdade, todo o filme tem o jeito diferente que eu já mencionei. Um tratamento meio teatral, ações bem carregadas de cargas dramáticas, a ação restrita a um único espaço e um único tempo, uma fotografia marcada ora por closes, ora por visões panorâmicas do cenário.
E como chave e argumento principal, a desconstrução da civilização. A ruptura da camada de gelo que criamos para cobrir nossa verdadeira essência ou natureza, que mantemos para sustentar a imagem de mundo civilizado, regido por leis e moral, pelo amor ao próximo e ao bom funcionamento da sociedade. Que encobre o egoísmo de nossas mentes, a hipocrisia de nossos ideais cristãos. Porém, o filme vai além. Mais que destruir a camada de gelo e mostrar que talvez a civilização não seja nada mais que um devaneio do imaginário coletivo, somos direcionados a outro ponto: à realidade do caos.
Ao caos enquanto a realidade da civilização.
Em uma nota?
8.5
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