A Pele Que Habito
Direção: Pedro Almodóvar
Roteirista: Pedro Almodóvar, baseado no livro "Tarântula" de Thierry Jonquet.
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Blanca Suárez, Eduard Fernández.
Do que se trata?
Se trata de um médico aparentemente normal, uma mulher mantida refém e um passado que não se deixa morrer. Robert Ledgard é uma espécie de cientista do Frankstein modernizado, que tem a missão de construir uma pele que seja resiste a dor e ao fogo, e nas costas duas grandes dores: a perda da mulher e, depois, o suicídio da filha. Para testar a sua nova pele, ele mantém como refém uma jovem e bela mulher chamada Vera que, logo de cara, sabemos não ser uma vítima comum de estupro: há um algo entre eles, que se constrói aos poucos, numa mirabolante viagem ao passado.
Como realmente é?
Do tipo que nenhuma sinopse ou tentativa de sinopse é capaz de passar a verdadeira idéia do filme sem acabar destruindo a expectativa que o filme cria. É de uma genialidade incrível, e vai além de qualquer idéia pré-estabelecida. No fundo, o que menos importa para o rumo da história é exatamente a tal pele formidável que o Robert trabalha tanto, e até o próprio presente não tem tanto significado, ao menos não no início e no meio. Ele só terá quando os pontos entre a viagem ao passado feita na metade do filme e o presente forem se estabelecendo de uma maneira formidável. Primeiro, você estranha totalmente o que está a acontecer: nada faz sentido. Por que, de repente, uma viagem a seis anos atrás? Qual o sentido? Entretanto, tudo começa a fazer sentido, e todas as primeiras impressões que você criou no início sucumbem: nada é muito o que parece ser.
O que eu achei?
Genial. O filme parece algo simples, uma história mirabolante, é verdade, porém nada te deixa crer que haverá tamanha reviravolta quanto uma viagem a um passado nunca imaginado por qualquer um. Fatos que não teriam tanto sentido se explicados no presente, são apresentados com maestria pelas lembranças de um Robert finalmente feliz e deitado na sua cama, que reconstrói para si e para nós os verdadeiros, porém errôneos, caminhos que o fizeram chegar até ali. E se, por um momento, você acredita que finalmente compreendeu tudo, o Almodóvar faz tudo ruir novamente. Porém, acho que tiveram partes desnecessárias do roteiro, como uma breve explicação dada pela fiel serviçal do Robert, Marilia, sobre a origem nada rica dele e um irmão nunca conhecido como tal, mas sempre odiado como ser humano. Claro que a existência desse irmão foi fatal para o resto da história, porém não creio que houvesse real necessidade de se explicar a origem humilde do nosso rico protagonista.
Entretanto, não é nada que abale o quão maravilhoso é o filme: atuações fantásticas, em especial do Antonio Banderas, e uma fotografia muito bonita, especializada em atenuar a dor das personagens e transferi-la para o espectador, um ritmo muito bom que nunca deixa o filme desandar ou cair em melancolia ou filosofia demasiada: a todo momento se está mostrando e destruindo realidades. Esse é um dos pilares do roteiro do Almodóvar: refutar o que ele mesmo nos faz acreditar.
Uma refém não é meramente uma refém. Uma mulher não é meramente uma mulher. Seis anos nem sempre são o suficiente para se enterrar ou se soprar certas cinzas. E realmente, nem tudo é aquilo que parece ser.
Em uma nota?
9.5
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